Os nós de seus dedos estavam esbranquiçados tamanho era a força que impunha sobre o mastro de seu pequeno barco. O mar estava bravio e as esperanças, haviam desembarcado em um porto distante e já esquecido. Ele estava sozinho, nem mesmo a sorte tivera coragem de dividir seus momentos, apenas as vozes da razão repercutiam em suas noites de naufrago perdido. Seguia, completamente sem destino e sem bússola, também, já não importava. Todas as vezes que avistou terra e decidiu atracar, perdeu muito mais do que levou.

As ondas lhe jogavam de um lado para o outro como se fosse um boneco, apenas uma marionete do senhor do tempo que coordena as cordas de cada ser humano. O cansaço havia lhe vencido há muito tempo e, só continuava lutando devido à covardia e o medo da morte. Sabia que poderia finalmente descansar na calmaria do silêncio, contudo, nas profundezas de seu tolo coração, ainda existia uma pequena luz efêmera e tola que lhe mostrava que ainda nem tudo estava perdido.

Ele não temia os grandes monstros do oceano, nem o grandes tubarões que circularam sua pequena nau durante tanto tempo. Na verdade, os chamava para perto, queria ser logo devorado, que sua vida se encerrasse em mandíbulas tão fortes capazes de destruir sua mente e suas culpas, mas, nem mesmo seus apelos eram ouvidos pelas criaturas, elas simplesmente desviam seus olhares e seu desejo, talvez, os monstros que estavam em sua mente eram maiores… Que bom seria se realmente existissem heróis…

Algum deles poderia exterminar aquelas vozes, segurar em sua mão e lhe dizer que tudo acabaria bem… Mais sonhos, como nas histórias que nos fazem adormecer de uma forma mais branda, que nos arrancam da realidade que estamos inseridos e que muitas vezes, é tão dolorosa… Ele sabia que essa era a sua realidade e, nada poderia mudar, estava cansado de tentar… E tinha medo de se afogar, pensou em se atirar nas águas selvagens, mas o resto da luminescência da esperança ainda brilhava… Será que em nenhum momento terei o que busco?

Durante algum tempo, ele condenou o mar, condenou as estrelas, o sol e até mesmo Deus. Perguntou-se qual a razão para tudo que lhe acontecia… Gritou para um mundo vasto e aparentemente vazio qual era o verdadeiro problema… Não houve uma resposta, não houve uma solução, houve apenas um silêncio aterrorizante que provava que ele era o único ser próximo que lhe ouvia… Sem esperanças e cansado, ele se soltou do mastro e deixou o corpo cair quase sem vida no pobre convés de sua embarcação.

Ao despertar pela manhã, olhou ao redor e viu que tudo estava calmo, mesmo assim se perguntou novamente o porque e culpou tudo que seus olhos viam, até o momento em que foi lavar o rosto da água salgada e, como um espelho, contemplou seu próprio reflexo e, naquele pequeno instante, se ajoelhou no convés e pediu perdão para tudo que seus olhos conseguiam ver… A culpa não era das estrelas, muito menos do sol, Deus não tinha nada a ver com seus problemas e muito menos aquela situação.

Ele havia se condenado aquela situação, ele havia pego seu barco e saído sem qualquer direcionamento, ele havia esquecido a esperança para trás, pois para ele, ela já não era uma realidade, mas sim, como um sonho que se perde quando despertamos. Ele era o culpado por toda aquela situação, por colher os frutos antes do tempo, por querer correr sem ao menos andar primeiro, por querer amar sem ao menos saber o que é o amor… Então, ele sentou-se ali, pedindo perdão por todos erros que o levaram até aquele momento e ali deixou sua alma, e rezou com toda sua alma pelo perdão e pela existência de uma segunda existência ou uma morte silenciosa, não pediu perdão…

Ele apenas descobriu que seus crimes foram cometidos por suas próprias mãos e que, se estava naquela situação, foi por que deixou sua embarcação sem direção, rumo a qualquer nova estação… E assim, ele chorou, como sempre, no silêncio dos pensamentos, então ele deitou-se e decidiu cortar o mal pela raíz e assim, nunca mais falou…