A Flor

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Subitamente, uma flor nasceu naquele terreno baldio, em meio à tanta sujeira, ela se destacava com sua bela cor que destoava de todo cinza que a envolvia. Mas, ela não se importava, havia uma pequena poça d’água formada pela chuva da noite anterior bem a sua frente, assim, podia ver seu reflexo e a sombra de suas belas folhas que cresciam à parte de tudo que estava ao seu redor.

A flor sabia que era bela, no entanto, o que adianta ser bela apenas para os próprios olhos? Não seria ainda mais bela se houvessem outros olhos para apreciá-la e dizer o quanto era bela? Sim, sua beleza e seu perfume teriam um significado diferente se adornasse uma outra existência, mas, ela estava ali, fincada na terra, escondida por toneladas de sujeira que o mundo deixara a sua volta.

As estrelas, em suas noites solitárias, brilhavam para ela e em muitos momentos, pareciam sorrir de uma forma tão singela que a flor lhe devolvia o sorriso, sem saber se elas poderiam perceber que ela lhes sorria de volta. Como uma estrela tão longínqua poderia avistar um sorriso tão pequeno quanto o dela? Então, a flor se recolhia em seus pensamentos e rezava para que o sol despertasse depressa e lhe envolvesse com seu calor e com sua claridade, ao menos, sentiria suas folhas aquecidas como um abraço que se deseja, mas que não se recebe.

E os dias foram passando para a pequena flor solitária, que continuava apreciando sua própria beleza que aos poucos, perdia todo seu encanto. As folhas, antes vistosas e verdes, começavam a murchar, o caule, em riste, começava a inclinar-se para frente, o seu próprio perfume já não a encantava, tornara-se comum, pois não havia ninguém para sentir. Aos poucos, a bela flor começou a perder a força e já não desejava o sol, apenas a escuridão protetora da noite e os sorrisos distantes de estrelas que não se importavam com os dela.

Ela não podia olhar para a poça d´água e perceber que o tempo passava rapidamente e com ele, toda sua curta existência. Morreria, chegaria o crucial dia em que ela, simplesmente deixaria de existir, deitaria seu corpo no chão e esperaria suas folhas secarem, e, mesmo assim, sentindo as formigas com suas garras lhe arrancando grandes pedaços. Seria um triste fim para alguém tão bela, alguém que nascera simplesmente para iluminar um olhar, ou até mesmo aromatizar um lugar… Esse seria seu fim ali, entre tantos pneus, entre tantas bonecas, bichos de pelúcia abandonados por seus donos por perderem a graça.

Mas, inesperadamente, certa manhã, a pequena flor percebeu uma sombra gigantesca eclipsando seu sol, ela olhou para cima disfarçadamente e percebeu que era uma garota, logo em seguida, usando de todas as suas forças, a flor se colocou de pé como se fosse os primeiros dias de sua vida. Ela conseguiu o que queria.

A garota a percebeu e se ajoelhou cuidadosamente, percebendo que a pequena flor estava ligeiramente torta, pegou um pequeno galho seco e fincou ao seu lado, logo em seguida, utilizando um pequeno cordão que encontrara solto em sua roupa, amarrou o caule da flor àquele apoio e sorriu. A flor fechou os pequenos olhos e sorriu para si mesma, finalmente teria olhos para ver como ela era bela, teria um nariz para sentir como seu perfume era embriagador, teria alguém para dar sentido a tudo que ela nascera para ser, e para rega-la e torná-la a flor mais bela para apenas seus olhos. Orgulhosamente uma flor, não uma simples flor, pois aquele que cuida de alguém, torna esse alguém ainda mais especial.

Mas, a garota foi embora, acenou para a flor e sorriu mais uma vez. Ela achou que a garota voltaria, em seu pequeno coração de clorofila pacientemente esperou a noite passar, olhou para as estrelas e sentiu-se como elas, pois no dia seguinte, teria um olhar sobre suas pétalas, dando sentido a sua humilde e efêmera existência, mas no dia seguinte, a garota não apareceu. A flor se entristeceu, mas mesmo assim, não perdeu as esperanças, ela havia lhe amarrado naquela haste de madeira seca, havia lhe sorrido como nenhuma estrela lhe sorriu, havia visto em seu olhar o seu reflexo e suas cores misturados aos olhos claros da garota. Tudo era uma questão de esperar.

E os dias foram passando e, como suas folhas, a esperança foi murchando. O peso do fim da sua vida lhe forçando a deitar-se, contudo, estava impedida de cair e se dar por derrotada devido à haste que, já morto, permanecia firme em seu lugar. O sol já não parecia tão amigo, seu calor ardia em suas folhas e pétalas, a escuridão também não lhe ocultava mais, era fria, silenciosa e sempre trazia consigo seres que lhe comiam aos pedaços.

Cada dia para aquela flor abandonada era um suplicio sua beleza… De que lhe adiantava se não havia olhos para apreciar? Seu perfume… Nada mais era que um atrativo para os seres que viam e voltavam todos os dias… E sua pequena e breve existência? Ela não decorou nenhum lar com sua cor viva e alegre, não esteve presa em nenhuma lapela de casamento, nem mesmo fez parte de nenhum buque de noiva… Claro, seriam existências mais breves ainda, mas ela seria querida por alguns momentos, alguém notaria sua beleza… Com certeza poderia ser escolhida em um vaso para ser dada para alguém especial… Ficaria em um copo com água e açúcar para durar mais alguns dias, mas acabaria morrendo, mesmo assim, morreria sob o olhar de alguém que a escolheu e não naquele lugar onde tudo que havia ao seu redor eram lembranças de momentos que os seres humanos simplesmente descartaram por não acreditar mais em seus significados.


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