O fato que quero contar
Fala sobre respeito
E sobre não poder julgar
Que é falta de despeito.*
Se você quiser aprender
Basta continuar a ler
Logo você vai entender.
Mal tinha o que comer
Na sua humilde fazenda
Nada vingava pra colher
Fez muitas oferendas*
Mas nada parecia ajudar
Deus começou a xingar*
Pela desgraça da fome.
Porém eis que esse “home”
Se virava no riozinho
Pescava lá o que come
Se lambuzava todinho.
Era melhor que nada
Mesmo assim, se queixava
Por ser muito pouco.*
Mas certa vez, ficou louco
Quando viu presa na rede
Uma mulher metade peixe*
Não acreditou no que vede
Aquilo só podia ser enfeite
Mesmo assim era um deleite
E precisava ver de perto.
Ele puxou forte e certo
E quando a maravilha chegou
Ele nem conseguiu falar
Seu interior se maravilhou
Que foi logo a moça abraçar
Não deixando escapar
Aquela mulher sem par.
“Comigo você vai casar”
Disse ele sem pestanejar
A beldade lhe sorriu
E não teve como negar
A forma humana assumiu
E disse: contigo caso, viu
Mal de mim não pode falar.
O fazendeiro veio a acatar
E pro casório todos convidou
Queria sua noiva exibir
Mostrar o que o encantou
Todo tempo estava a sorrir
Nenhum momento alterou
Nada parecia poder destruir.
Com a felicidade a fluir
A festa toda noite durou
Ninguém ficou parado
Até quem não sabia dançou
Tamanha era a alegria
Curtiram até o outro dia
Mas só o fazendeiro, continuou.
Tudo depois melhorou
Graças aquele encontro
Sua pobreza o abandonou
Não sofria mais confronto
Da solidão que incomodava
Nem do peso da inchada
Tudo em sua vida mudou.
A terra também prosperou
Tudo que plantava, dava
E assim o fazendeiro seguiu
Com a linda que segredava
A origem daquele casamento
Que tinha tanto sentimento
Algo que nunca sonhava.
Todo mundo comentava
O sucesso daquele pobretão
Que estava quase morto
E que agora não mais não
Todo mundo queria saber
O que fez para enriquecer
Qual era o segredo afinal?
Só podia ser algo mal
Negócios com o tinhoso
Aquilo era algo normal
Um caminho de preguiçoso
Os vizinhos comentavam
Alguns até desconfiavam
Aquilo era algo perigoso.
Mas o fazendeiro dengoso
Não tava nem ai pra falação
Tudo que queria era viver
Sua vida com amor no coração
Com a terra prosperando
Com lindos filhos chegando
E a linda esposa apaixonada.
Já não pegava na inchada
Tudo ali dava sem querer
Era um milagre dos céus
Tudo ali vinha a crescer
Até mesmo suas terras
Ricas e livres das feras
Nada parecia corromper.
A felicidade daquele ser
Até o dia da grande festa
Que aconteceu na cidade
Foi um cuspe na testa
Que o fazendeiro se deu
O que prometeu, esqueceu
Há muito tempo pra mulher.
Antes de palavra qualquer
Vale a pena um pouco narrar
O que levou o fazendeiro
A solene promessa quebrar
Tudo por causa da mania
De poder e da soberania
Que veio a se acostumar.
A esposa quis dançar
Mas isso ele não fazia
Também não quis deixar
E a pobrezinha insistia
Ele já tinha umas bebido
Tinha até se arrependido
De ter ido à comemoração.
Na mulher deu safanão
E no meio de todo mundo
Chamou sua atenção
Disse palavrão e absurdos
Falou mal de sua origem
Que vinha d’água de fuligem
E isso a deixou revoltada.
E na hora menos esperada
Levantou-se de seu lugar
E foi seguindo seu caminho
Ele tentou se desculpar
Mas ela não queria saber
Das suplicas daquele ser
Que já não se importava.
Nas margens do rio estava
Virada para todos que assistia
A cena que se desenrolava
Tirou tudo aquilo que vestia
E olhou para ele muito sério
Virou peixe, foi-se o mistério
Nenhuma palavra se ouvia.
Ela começou: quem diria
Que quebraria a sua promessa
Agora é minha oportunidade
De partir com toda pressa
Voltar para saudoso lar
De onde conseguiu me tirar
Sem ao menos perguntar.
E antes de continuar
Saiba que tudo que trouxe
Com certeza vou levar
Para ver que não é doce
Esse tipo baixo de atitude
Que é típico de gente rude
Fique como te encontrei.
Depois disso, tudo que sei
E que a mulher formosa
No rio mergulhou
E logo se viu a cauda jocosa
O fazendeiro ainda tentou
Mas como tudo fracassou
A mulher não perdoou.
O fazendeiro chorou
Ela não quis saber
E os filhos começaram
A no rio desaparecer
Logo depois a plantação
E tudo mais desse varão
Foi sumindo lentamente.
O fazendeiro descontente
Viu sozinho e sem ninguém
A casinha podre voltou
No bolso, nem um vintém
Nem mulher, nem alegria
Nem dos filhos a gritaria
Já não era mais alguém
O povo foi embora também
Deixando o pobre sozinho
Com os próprios pensamentos
Sem chão e sem caminho
Com o peso do arrependimento
Nublando o discernimento
De seu próprio julgamento.
Nunca mais aquele jumento
Julgou a origem de ninguém
Nem os demais menosprezou
Pois havia aprendido também
Não importa de onde viemos
Ou que forma que nascemos
Todos, respeito merecemos.