A Iara

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Um grande rio cortava a fazenda de Deuclécio, que um dia fora tão bela quanto tudo que existia à sua volta. Haviam muitas árvores, os campos eram verdejantes ao seu redor e os pássaros viviam cantando em suas redondezas, entretanto, a fazenda de seu Deuclécio estava caindo em ruínas. Fora um homem muito rico no passado, mas com a estiagem e com a praga dos animais, viu tudo que possuía definhando lentamente, tudo que lhe sobrara fora sua plantação de melancias que ladeava o grande rio.
Certa vez, caminhando pela plantação, Deuclécio deu falta de algumas frutas e começou a manter guarda para pegar o ladrão que levava sua única fonte de dinheiro. Foram longos dias esperando, escondido entre os arbustos da margem, mas ninguém apareceu, e todos os dias pela manhã, uma delas sumiam e, foi quando percebeu que todas que haviam sumido estavam próximas da margem do grande rio, então Deuclécio imaginou que o ladrão usava o rio para levar suas frutas e, para não ser visto, sempre à noite. Mas naquela noite, iria surpreendê-lo.
A lua estava cheia e iluminava o céu escuro, muitas estrelas cintilavam no céu como imensos e distantes vaga-lumes. Deuclécio, não sabia se admirava as estrelas no céu ou se apreciava seu brilho sendo distorcido pelas águas calmas do rio. Já não se lembrava de como era bela a natureza, sempre submerso em sua pobreza e nas lembranças de dias de prosperidade que se foram quando todas as desgraças partiram e lhe deixaram apenas… Aquela plantação e algumas peças de roupa que mais pareciam com um pano de chão.
Deuclécio suspirou profundamente e lembrou-se das vezes que sentava nas margens daquele rio para ficar olhando seu gado pastando, os patos nadando num lago feito e cercado por ele, as galinhas pastavam e os cães dormiam sempre aos seus pés. Sempre fora solteiro, tentara algumas vezes, mas as mulheres estavam somente interessadas em suas terras e em seu dinheiro e, tudo acabou quando ele partiu para longe. E agora, ali estava ele, zelando por algumas melancias que significavam alguns trocados.
Subitamente, ele ouviu um barulho vindo do rio, como se alguém remasse silenciosamente, Deuclécio sorriu, se encolheu atrás do arbusto e ficou olhando por uma fresta nas folhas para a margem até que, seus olhos se depararam com algo que não estava esperava.
Primeiramente surgiu uma cabeça de dentro das águas, longos cabelos, estava escuro para ver de qual cor eram, Deuclécio pensou em pular e assustar o ladrão, mas algo dentro de si dizia para esperar. A cabeça olhou para todos os lados e começou a caminhar para a margem, logo surgiu os ombros, os seios e em seguida surgiu o sexo, era uma mulher. Ela caminhou lentamente até a margem e Deuclécio estava completamente sem ação, o brilho do luar reluzia na pele molhada daquele ser, seus olhos estavam presos nas curvas daquela bela mulher, então ela se abaixou diante de sua plantação e agarrou uma de suas melancias, mas quando estava preste a se virar e voltar para as águas, Deuclécio correu e ficou entre a mulher e as águas.
Era mais bela de perto do que de longe, seus olhos eram profundamente azuis, e seus cabelos eram longos e encaracolados, seu corpo era tão belo e tão perfeito que faziam os olhos do simplório fazendeiro ficar indo do alto à baixo. Não tinha palavras. A mulher também estava assustada, não esperava ser surpreendida por ninguém.
— Por que rouba minhas frutas, mulher? — Balbuciou Deuclécio sem saber o que dizer realmente. — Quem é você?
A mulher não respondeu, deu um passo atrás e Deuclécio deu um passo a frente.
— Não poderá fugir de mim, mulher. Não sem antes dizer quem é você. — A mulher continuava sem dizer nenhuma palavra, seus olhos iam de um lado a outro, estava assustada e não sabia o que fazer, eis que Deuclécio olhou para trás, de repente poderiam haver mais mulher como elas, mas as águas do grande rio estavam calmas. — Que homem lhe mandou roubar em seu lugar?
— Nenhum homem mandou-me. — Respondeu a mulher e sua voz ressoou nos ouvidos do homem como uma bela canção. — Estou com fome e só queria comer.
— E quem é você? — Perguntou o homem com os olhos brilhando pela visão tão bela que havia em sua frente. — Porque a minha plantação?
— É a mais próxima de minha casa e gosto muito delas. Nenhuma outra é tão suculenta quanto essas. Mas… — Ela se aproximou com seu corpo perfeito e nu. — Prometo jamais roubá-las se o senhor deixar-me ir.
Deuclécio olhou para a mulher mais uma vez e sentiu algo batendo em seu peito. Seu corpo pedia aquela mulher e seus lábios poderiam suplicar pelo seu beijo, seus cabelos estavam descansados sobre os ombros e alguns fios lhe cobriam os mamilos claros e firmes. Naquele momento, Deuclécio percebeu que estava perdidamente apaixonado pela mulher e que não a deixaria partir.
— Roubou muitas de minhas frutas, mulher. Não sairá de minha fazenda e casará comigo e viveremos para sempre juntos.
A mulher suspirou profundamente, fechou os olhos e em seguida, disse:
— Me casarei com você como deseja, mas jamais poderá falar mal da água. E isso deve me prometer.
— Prometo, mulher, venha comigo para minha casa.

A mulher o seguiu e cumpriu com sua palavra, e Deuclécio experimentou novamente a prosperidade em seu lar, de uma forma que não conseguia compreender, sua plantação começou a crescer mais e mais e aos poucos pode ter dinheiro para comprar as cabeças de gado que um dia vendera para sobreviver. A vida não poderia ser mais justa com aquele homem, tinha uma bela e maravilhosa mulher, que lhe dera filhos lindos e cada vez mais sua fazenda progredia, voltou a ser um grande senhor de terras e todos vinham e lhe pediam conselhos sobre o que fazer próximo da falência total. E enquanto Deuclécio gozava de tanta importância, não percebera que sua mulher cada vez parecia mais triste e arrependida, deixara de lhe dar atenção e amor o que resultara em seu desleixo.
Certa vez, quando voltava da cidade, Deuclécio encontrara sua casa em grande bagunça, o gado estava pastando livre a noite, alguns patos estavam nadando no grande rio e seus filhos estavam brincando na terra próximo do curral dos porcos. Aquela visão lhe deixou revoltado e entrou na casa procurando pela sua mulher que estava sentada na sala de cabeça baixa.
— Está casa esta uma bagunça, mulher! — Esbravejou Deuclécio, a voz distorcida pelo álcool que ingerira com os amigos na cidade. — O que você fez o dia inteiro?
— Como você pode ver… — Respondeu a mulher sem fitá-lo. — Fiz nada o dia inteiro, passei a maior parte do tempo aqui, sentada, quer dizer, fiquei um pouco lá fora olhando o rio também.
Deuclécio passou as mãos no cabelo, acendeu um cigarro e após uma longa tragada olhou para a mulher que continuava imparcial na cadeira de balanço, ele encostou-se no batente da porta e disse seriamente.
— Quando a vi pela primeira vez na plantação, fiquei encantado, mas por ser uma ladra achava que era uma filha da água suja… — A mulher pela primeira vez ergueu a cabeça, ele continuou. — Mas agora tenho certeza, você só pode ter vindo da água suja.
No mesmo momento, Deuclécio lembrou-se de sua promessa, e percebeu que havia quebrado, ele tentou falar com a mulher, mas ela estava tirando toda sua roupa e mostrando toda a exuberância que o tempo não fora capaz de tirar.
— Você quebrou sua promessa e agora irei voltar para meu verdadeiro lar. Adeus.
— Você não pode ir embora! — Disse Deuclécio quase suplicante. — Preciso… Não pode embora você me deve!
Mas a mulher não lhe dava atenção, continuou caminhando com seu corpo desprovido de roupa para o rio, seus filhos ficaram olhando, os olhos cheios de lágrimas, os animais também fitavam a mulher e toda sua beleza exuberante, Deuclécio vinha atrás, gritando e xingando.
— Não preciso mais de você! Pode ir embora. Tenho tudo que preciso aqui. Pode voltar para sua vida em suas águas sujas. Pode ir. Vá mas nunca mais vai poder voltar.
A mulher parou abruptamente, Deuclécio sentiu-se seguro de suas palavras, a mulher pensara melhor e iria ficar, lentamente ela se virou e disse uma simples palavra que, como uma faca, pareceu cortá-lo no meio.
— Não pretendo voltar.
Então correu para as águas e mergulhou. Deuclécio ficou parado, olhando e sorrindo sem saber o motivo do que achava graça, mas eis que algo começou a acontecer. Seus quatro filhos começaram a caminhar para o rio, percebendo o que estava preste a acontecer, tentou impedir, mas nenhum de seus esforços foram suficientes para impedi-los. Quando tentava segurá-los, soltavam gritos tão altos e fortes que era forçado a tampar seus ouvidos que pareciam próximos de explodir.
Seus filhos entraram nas águas e foram seguidos por tudo mais que estava sob aquela terra, lentamente e sem poder fazer nada, Deuclécio viu seu gado, sua plantação, seus patos e todos os animais submergindo no rio e assim continuou até que lhe sobrasse apenas, sua velha casa, suas roupas velhas e as poucas melancias que ainda existiam na margem do rio.
Deuclécio ainda ficou esperando pela volta da mulher e de tudo que possuía, mas ela cumprira sua palavra, disse que jamais voltaria, e Deuclécio esperou, esperou, até que uma doença o abateu, seus vizinhos, que agora eram mais distantes que nunca, diziam que havia ficado louco e que a mulher o deixara tarde da noite. Deuclécio morreu sozinho, deixando nas paredes, e na margem do rio: Me perdoe, Iara.


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