Conto: Confissões de uma taça de ouro

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Sou uma taça de ouro, isso mesmo, uma taça de ouro decorando uma estante de mogno escuro. Dentre todos os objetos expostos neste endereço, sou o mais valioso. Tenho um lugar de destaque. Fico bem no centro, um pouco acima da televisão, impossível de não ser visto e apreciado por todos que visitam esta casa. Já ouvi muitos comentários ao meu respeito e, meus donos, sempre pareceram muito satisfeitos.

Isso era para me deixar simplesmente orgulhoso de minha existência, no entanto, devo confessar que invejo demais meus companheiros. No fundo, não queria ser quem sou, sirvo apenas para ser apreciada, as pessoas param diante de mim e ficam me olhando, não chegam a tocar com medo de me derrubar e acontecer uma catástrofe.

Sinceramente, não me importaria se acontecesse algo de ruim. Sei que seria meu fim, mas pelo menos, seria o fim de meus suplícios, afinal de contas, tudo que tenho para oferecer é minha beleza e mais nada. Sirvo apenas para ostentar algo que não compreendo. O que adianta possuir algo belo que não é utilizado para nada?

Do meu lado esquerdo, um pouco mais abaixo, tem um daqueles porta-retratos simples, não possui nada de especial e não chama atenção quanto eu, mas, para mim, é uma das mais belas coisas desta estante. Neste simples porta-retratos há uma foto de toda família, eles sorriem para a câmera. Um momento feliz que merece ser lembrado e que faz parte do trabalho do simples porta-retratos, emoldurar um momento.

Ninguém da família para diante dele e diz para as visitas: Este é o nosso porta-retratos… Essa foto foi tirada em um dia que todos estávamos muito felizes. Mas param diante de mim e dizem que sou uma taça de ouro comprada em uma viagem, uma espécie de relíquia. No começo, me sentia bem, mas com o tempo, fui percebendo que a razão de minha existência era simplesmente embelezar.

Do meu lado direito, existe uma coleção de livros incríveis, já ouvi tantas coisas deles que fiquei com inveja por não ter nada tão interessante para contar. Mesmo assim, todas as visitas simplesmente passavam os olhos pelas lombadas, mas nunca pegavam nenhum para folhear, mas, o dono deles gostava, pois lhe doía emprestar algum de seus livros. Eram seus companheiros em madrugadas insones. Ele vinha até a estante, tirava um e sentava-se na poltrona e ali ficava lendo-o, vi isso acontecendo diversas vezes.

Nesses momentos ficava apenas contemplando a cena e me imaginando no lugar do livro. Claro, não tinha tantas palavras e muito menos histórias pra contar, seria até ridículo ficar sendo apreciado por ele naquele momento, com certeza me sentiria como o anel do poder do filme O Senhor dos Anéis, ele era de ouro e ainda era chamado de precioso. Eu também era de ouro, mas ninguém nunca me chamou de precioso, sei dessa história por que um pouco abaixo dos livros, tem uma coleção que já assistiram aqui na sala e pude ouvir.

Até mesmo o um anel de poder tinha uma finalidade, eu não. Triste isso, estar envolta de tantas coisas verdadeiramente belas e com conteúdo, e continuar sendo uma simples taça de ouro vazia e sem qualquer funcionalidade. Minha vida era ficar ali, parada, sendo alvo de olhares apreciadores, e ser ignorada completamente pelos donos da casa por ser algo comum para eles.

É outra coisa que me toca, para as pessoas que vivem aqui, passo despercebido, acostumaram com minha existência, nem sequer os raios de sol batendo em meu exterior chamam sua atenção como outrora, acostumaram-se e acabei me tornando como um móvel padrão da casa, quer dizer, até mesmo alguns têm uma finalidade e um uso, eu não. O único momento que me tocam é quando tiram o pó que vai acumulando durante os dias.

Isso é algo que reparei, quando nos limpam, costumam parar no porta-retratos, olham e sorriem, os livros, dão uma leve folheada, os filmes, olham as capas e algumas vezes separam para assistir em alguma oportunidade. Quando chega a minha vez, apenas passam o pano em torno de mim e me devolvem para o lugar. Simples assim.

Não param para me olhar, para me apreciar e muito menos sorriem para mim. Volto para meu lugar e vejo que todos meus vizinhos de estante estão um pouco fora de lugar, justamente por serem manuseados. Alguns estão ali há muito e muito tempo, poderiam ser trocados, no entanto, sei que não fariam algo assim justamente pelo valor sentimental que possuem. Algo que é possível sentir no orgulho simples de cada um.
Agora eu, sou apenas uma taça de ouro, já ouvi conversas a respeito de meu valor, algo que não me deixa nenhum pouco orgulhoso, valores, principalmente financeiros, se perdem, objetos como eu, em determinados casos são investimentos. Eu talvez seja um investimento, eles jamais venderiam o porta-retratos pelo mesmo valor que eu, contudo, eu jamais teria o mesmo valor sentimental que ele.

Sirvo apenas para abrilhantar uma estante, para ser um ponto brilhante para olhos que não percebem a verdadeira beleza da vida. Eu confesso que invejo meus companheiros, durante muito tempo, eles acharam que eu era o objeto mais bonito e valoroso do lugar, e por isso, invejavam minha existência. Eu me aproveitei desse momento e fui me tornando cada vez mais convencido de minha beleza.

Até o momento que fui percebendo a verdade, que as pessoas se acostumam com a beleza e quando isso acontece, ela se torna algo comum. Diferente dos sentimentos que podem nos tornar uma realidade todos os dias. Eu sou apenas uma taça de ouro sobre uma estante, nunca nenhum líquido tocou minhas profundidades, sirvo apenas para ser apreciado por aqueles que nunca me viram pela primeira vez, para aqueles que já viram, me tornei comum, não comum como o porta-retratos, os livros ou os filmes.

Eles pelo menos trazem uma história pra contar, possuem uma necessidade de existir, agora eu, sirvo apenas para ficar aqui, parada sem qualquer uso, tendo somente minha beleza para ser oferecida, uma beleza que pode se tornar comum e sem significado, e tudo que eu queria era ser utilizada e não apenas exibida.


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