Correntes do mal

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Há alguns anos atrás quando era apenas um pré-adolescente que acreditava em Cuca, Saci e políticos honestos, encontrei um pequeno papel jogado que dizia que deveria copiá-lo treze vezes e depois entregar a treze pessoas desconhecidas e, caso não fizesse, algo muito ruim aconteceria comigo até o final daquele mesmo dia.

Nem preciso dizer que comecei a copiar o papel no mesmo segundo devido ao medo daquela possível maldição. Escrever não foi a pior tarefa para dar continuidade àquela corrente, mas sim, encontrar as treze pessoas desconhecidas. Para um garoto que não saía do bairro que crescera, encontrar algum desconhecido era bem mais difícil.

Cansado de ir de um lado para outro e sentindo aquela sombra terrível cada vez mais sobre minha cabeça, acabei decidindo jogar os papéis nos quintais de algumas casas que não conhecia ninguém. Claro, fiquei com medo de quebrar a corrente e o pior acontecer, porém, se hoje estou aqui escrevendo, o pior não aconteceu. Ufa, valeu ter jogado no quintal de desconhecidos.

Confesso que, até hoje, ainda nutro receio a respeito das ameaças dessas terríveis correntes. Sério… Sei que nada de ruim ou de bom acontecerá, porém… Vai saber… E se por ventura justamente naquele momento o universo decidir que terá que acontecer alguma coisa, para sempre ficarei com a dúvida: será que foi por causa que quebrei a corrente?

E o mais interessante de tudo é que essas benditas correntes também acompanharam a onda da tecnologia. Hoje em dia recebemos correntes por e-mail, pelas redes sociais e até mesmo pelos grupos do WhatsApp. Algumas chegam até viralizar pelas redes, seguem o exemplo de fotos e frases expressivas que todos curtem compartilhar e espalhar pelas redes.

É exatamente por isso que, assim que recebo alguma mensagem e ao perceber se trata de mais uma dessas mensagens super legais, abandono a leitura no segundo seguinte, justamente para não chegar ao final e ficar matutando se algo ruim realmente poderia acontecer. Sei que é superstição, que nada de ruim vai acontecer, ok… Não precisa me dizer ou repetir aquilo que já sei, mas, sério… Vai saber…

Acredito que talvez a maioria das pessoas que compartilham correntes tem esse pensamento “vai saber”, de repente nada aconteça, mas e se por ventura acontecer… Vivemos em um mundo de possibilidades, onde o próprio pensamento é uma manifestação de nossa realidade, vai que justamente nesse dia torça o pé por causa do salto ou de um passo em falso, no mesmo instante vai lembrar da corrente que não levou à sério. E, nem sempre o mais importante nas correntes é o fato de ter que repassar, mas sim, a mensagem que trás e que pode fazer diferença na vida de uma pessoa ou outra.

O medo é uma das forças mais poderosas que existem, é por causa dele que deixamos de fazer determinada coisa, é por causa dele que acabamos aceitando algo que não queríamos aceitar, é por causa do medo que deixamos de acreditar em nossos sonhos e preferimos uma vida segura e frustrante. É o medo que nos impede de acreditar em nós mesmos, de dar aquele voto de confiança… Entretanto, é o medo que nos faz ponderar, que nos faz pensar duas vezes antes de mergulhar, é o medo que nos faz desviar de determinado caminho.

O medo é como viver, uma linha tênue demais que separa a vida da morte. O medo não serve para nos parar, mas sim para nos fazer pensar e refletir sobre determinada situação, caminho, ou seja, lá o que for. O medo não é uma barreira intransponível, é apenas um obstáculo que precisa ser vencido, mas para isso, você precisa refletir sobre a superação, levar em consideração todos os prós e os contras e decidir se é realmente o que está por vir que quer para sua vida ou não. O medo exige coragem para ser enfrentado, ultrapassado e vencido, como o fato de dar continuidade à uma corrente ou não, se vai acontecer algo ruim ou não, não tem como saber, afinal de contas, tudo que acontece neste mundo, seja bom ou ruim, é apenas um resultado de nossos próprios passos.


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