Dança da vassoura nos bailinhos

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Dias atrás estava sintonizado na NovaBrasil quando, inesperadamente, uma canção antiga me levou de volta para os velhos tempos de escola. Suspirei ao recordar dos antigos “bailinhos” realizados na sala de aula, poucos dias antes de sairmos de férias. Esses eventos significavam a  oportunidade dos alunos se aproximarem daquela pessoa que ficaram o ano inteiro apenas observando de longe.

Na década de oitenta, as coisas eram bem diferentes do que são hoje, começando pelo respeito aos nossos professores, algo que infelizmente me parece que ficou no passado. Atualmente, o professor não luta apenas contra o analfabetismo, mas também contra a falta de valorização para uma profissão responsável por muitos médicos, advogados, astronautas e etc… Mas, enfim…

Dança da vassoura nos bailinhos de antigamente

Como estava dizendo, na década de oitenta havia um romantismo silencioso no olhar de cada jovem. Muitos alunos se contentavam com uma dança, um selinho ou até mesmo um amasso atrás do muro da escola ou em algum lugar distante da vista de todos. O desejo sexual já existia naquela época. Alias, isso é algo que existe desde a antiguidade, no entanto, não como hoje que parece que tudo gira em torno de sexo.

Na minha época, os garotos, quando queriam impressionar uma garota, chegavam e diziam: “acredita em amor à primeira vista?” Elas apenas sorriam, ficam vermelhas e se não dissessem nada por causa de sua timidez, ou pediam para uma amiga entregar um recado, ou passavam a escrever cartinhas cheias de carinho e suspiros. Agora, atualmente, esse lance de amor parece que caiu em desuso e, particularmente, não digo nada se alguém chegar e perguntar: “acredita em sexo à primeira vista?”. Se dissemos isso naquele tempo provavelmente levaríamos um tapa na cara.

Os adolescentes da época pensavam em sexo também, mas não era como hoje em dia que tudo gira em torno de algo sexual.

O apelo sexual não era primordial, era apenas consequência e, mesmo assim, uma consequência que poderia demorar longos e longos meses. Tudo caminhava de uma maneira mais inocente e, ao mesmo tempo, mais correta. E olha que para alguns pais daquela época, éramos bem avançados para o nosso tempo. Talvez, se alguém dissesse como seria em 2019, eles não acreditariam, com certeza.

Mas, voltando aos bailinhos. Era organizado para podermos nos despedir dos amigos que nos acompanharam durante todo o ano letivo. Cada aluno levava alguma coisa, seja para beber ou comer. Era um festival de refrigerantes quentes e sanduíches de mortadela que quase ficaram assados dentro de seus invólucros sobre a mesa de comes e bebes coletivos. No fundo da sala, uma vitrola antiga enchia o ambiente de música, ou melhor, de todo tipo de música.

Led Zeppelin só havia gravado três músicas: Black Dog, Rock ‘n’ Roll e Stairway to Heaven, foi por ouvir tanto que se tornou um trauma de infância para mim

Quer dizer, não me lembro de ninguém ter colocando um bom Heavy-Metal, mas os garotos daquela época gostavam de ouvir Led Zeppelin e balançar a cabeça como se fossem galinhas ciscando. Foi uma época de muitos estilos, para os que curtiam dançar, havia o bleique, mas também havia o som Dark (que de escuro não tinha nada) e o Punk Rock, mas, ouvir e agitar esse tipo de música em um baile como aquela época, era dar oportunidade para o bonitão da sala de tirar mais algumas ondas com a nossa cara. Além desses estilos havia também a música lenta, momento esperado por todos que queriam ter a oportunidade de tocar na pessoa que gostava.

Era uma loucura, começava a sessão de músicas lentas, as meninas procuravam seus cantos para ficarem conversando de um lado e os garotos, do outro tomando coragem para tirar para dançar sua personificação de Afrodite. Alguns dançavam muito bem, outros como eu, ficavam pensando: dois pra cá, dois pra lá e não se esqueça de ir girando. Ainda penso dessa forma até hoje, contudo, alguma coisa melhorou, aprendi a contar mentalmente e a disfarçar a rigidez de meu corpo.

Nas escolas de antigamente, ter uma vassoura era muito comum, para limparmos a sala depois da aula e para usá-la na dança da vassoura

O único problema desses bailinhos era a bendita vassoura. Naquela época, em toda sala havia uma para os alunos aprenderem a manter o ambiente limpo, lembro que levávamos até produtos para limpar os rabiscos que fazíamos na mesa quando entediados. Nas escolas de hoje, esses rabiscos um dia poderão ser considerados arte rupestre, afinal de contas, ficam nas carteiras eternamente, o governo não se incomoda em limpar, os professores muito menos e os alunos então…

Como qualquer outro garoto, havia uma garota em minha classe que gostava e muito. Conversavamos bastante, mas era muito tímido para confessar meus sentimentos. Além disso, as garotas de ontem e de hoje desenvolviam rapidamente, bem diferente dos garotos que precisam de mais um tempo para amadurecer de verdade. Naquela época, as meninas preferiam os garotos mais velhos e as que que não, preferiam aqueles que chamavam mais atenção, não existia ainda o apelo nerd que existe hoje em dia.

Os nerds se tornaram atraentes muitos anos depois, hoje em dia, levantar a bandeira nerd é ser cool… naquela época, só para ajudar nos deveres

Naquela época, eram chamados de inteligentes e eram apreciados somente em momentos de necessidade, fora esses momentos, eram os alvos dos saradões que adoravam se crescer nas costas dos seres raquíticos desprovidos de massa muscular. Enfim, é a vida… Por isso, quando percebiam que o aluno que sentava na primeira cadeira estava dançando com a pessoa que era apaixonado, poucos segundos depois, lá estava alguém com a bendita vassoura para frustrar sonhos juvenis.

E o pior, existem regras na dança da vassoura, você não pode entrega-la para a mesma pessoa, tem que ser para outra, ou seja, dançar com a sua personificação do amor juvenil, só em outra canção, caso tenha sorte é claro… Às vezes, quando ia entregar a vassoura para outra rapaz, ele simplesmente não aceitava, era contra as regras, no entanto, o sorriso de deboche no rosto da garota destroçava qualquer insistência.

Velhos tempos que não voltam mais…

Hoje a dança da vassoura é algo praticamente extinto, como as festas particulares em salas de aula, como as pessoas dizendo “você acredita em amor à primeira vista”, com amassos atrás do muro da escola sem exploração das partes intimas da garota ou em determinados casos, dos garotos, sem refrigerantes quentes ou sanduíches de mortadela, sem aquela inocência do primeiro amor que se guarda em segredo.

É meus amigos, a dança da vassoura morreu, hoje em dia, somente a dança da cadeira ainda está na moda, aproposito, não a dança da cadeira que sempre sobrava um. Hoje, a dança da cadeira é muito famosa nos bailes funks onde os garotos permanecem sentados para as garotas de saía e desprovidas de lingerie sentarem em seu colo sem qualquer proteção. E depois de nove meses, lá vem o Tiquinho. Tiquinho deste, do outro, dependendo da quantidade de cadeiras que se coloca na brincadeira.


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