Em plena manhã de domingo, lá estava eu indo para o trabalho degustando um novo livro de crônicas. A cada novo e grande texto, experimentava a sensação de uma vida completamente vazia e sem fortes emoções ou pequenos detalhes. Também sou adepto da crônica e por isso, cada detalhe do cotidiano para mim é muito importante.
Mas fazia algum tempo que não me vinha ideia alguma. Os acontecimentos ao meu redor não pareciam dignos de serem escritos e muito menos enviados para diversos jornais com esperança de ser publicado. Sejamos francos, existem cronistas fantásticos por aí e eu, como sempre, sou um eterno aprendiz.
Bom, fechei o livro e comecei a espreitar ao meu redor como se fosse um leão a procura de alguma presa para imortaliza-la em palavras, mas, nada… Sério mesmo, não havia nada de incomum acontecendo. As pessoas transitavam pelas ruas, lojas abertas com seus respectivos vendedores parados na porta aguardando um possível consumidor, ébrios em botecos logo cedo para curar a ressaca ou a tremedeira e essas coisas básicas.
Já estava quase voltando para o livro – que naquele momento estava mais interessante que minha vida – quando de repente, um senhor sentou-se ao meu lado. Ele olhou para minha cara por alguns segundos e talvez tenha sido os cabelos soltos e a camisa do Kreator – Phantom Antichrist que tocou seu coração para me entregar um daqueles papéis que as igrejas costumam pedir para que seus fiéis distribuam por aí para espalhar a mensagem e salvar almas.
Geralmente, não recuso esse tipo de oferta, acho muito chato quando alguém vem lhe dar algum papel e a pessoa simplesmente olha como se você estivesse oferecendo algum tipo de doença. Eu particularmente pego todos e qualquer um, mesmo que seja para amassar e jogar fora, penso na pessoa que está ali fazendo um trabalho para ganhar alguns trocados. Para mim é uma forma de contribuir.
O papel que o senhor me deu estava dobrado como se fosse um envelope de cartas, não aqueles brancos, mas aqueles com losangos pintados de verde e amarelo em toda extensão de sua borda. Pensei: é uma carta para mim. Então abri e fiquei surpreso ao ver que se tratava de uma espécie de carta, mas não para mim, mas para Ele, para o Grande Chefe do universo. Nesta carta, eu deveria escrever meus problemas e colocar na igreja para decretar a vitória sobre minhas dificuldades.
Antes de qualquer outra palavra, quero deixar claro que não tenho absolutamente nada contra religiosidade, pelo contrário, acredito piamente em Deus e em Jesus e é algo que, pode vir o Papa me provar ao contrário que não darei atenção alguma, acredito pronto e acabou, simples e direto. Sei que existem uma série de divergências na história, mas, creio que o conhecimento da humanidade, por muitos anos foi passado através de um telefone sem fio e para quem já brincou disso, conhece bem os resultados.
Depois de ler a respeito do por que daquela campanha religiosa, lembrei do apóstolo Valdomiro Santiago que sofreu um atentado alguns dias atrás. O autor do ataque foi um rapaz que se sentiu ofendido quando o apóstolo disse “vamos crucificar ele” (ou algo parecido), segundo o jovem, Valdomiro estava olhando para ele que provavelmente não queria ser crucificado e queria ver se Valdomiro dava uma de Lázaro.
Além do Valdomiro, ainda temos outros nomes que deixaram suas marcas no panteão religioso de nosso país. Começando pela Bispa e pelo Bispo da Renascer que ficaram durante muito tempo fora do país devido ao dinheiro encontrado dentro de uma Bíblia. E também temos o nosso e eterno Edir Macedo, homem religioso que é sempre mencionado em determinadas situações delicadas. Um homem de fé que é um exemplo para todos de onde podemos chegar ao servirmos a Deus. Edir Macedo além de dono de uma emissora ainda teve a ousadia de construir o Templo de Salomão com todas as especificações bíblicas. Algo tão faraônico que até mesmo a ex-presidente Dilma apareceu por lá para ver com seus próprios olhos, é mole?
Isso sem mencionar os outros religiosos que acabam dando um jeitinho brasileiro para manter, não somente a sua igreja, como também sua vida a serviço dos poderes celestiais. Alguns pastores vivem somente das doações que os fiéis dão nos cultos de maneira espontânea e sem pregações que enchem a cabeça de muitos com um monte de caraminholas. E, lembrando que, na era da modernidade, algumas igrejas até mudaram o sistema de recolhimento, você não precisa ter dinheiro vivo para contribuir, hoje aceitam débito ou crédito, olha que coisa mais chique.
E também temos a igreja católica… com seu passado negro onde o indulto era comprado. Já pensou? Imagine você com o maior medo de arder no inferno e chega um padre e diz: se você me der cinco reais você vai para o céu, caso contrário, a passagem para o inferno é gratuita, siga por ali. Um absurdo, isso sem contar que a igreja católica não tem só um canal, ela tem um país inteiro… Quer mais poder que isso? Bom, um dos Papas tinha muito mais poder que isso. O Papa Bento 16 em algum momento de seu curto mandato, disse que falaria com Deus para abrir um espacinho no purgatório para aquelas almas que não eram batizadas. Segundo o Ratzinger, era algo para atrair mais fiéis para o catolicismo e, consequentemente, mais investidores nos cofres religiosos.
O que todos esses religiosos têm em comum? O negócio lucrativo chamado: igreja. Sinto muito se participa de uma comunidade religiosa, não estou tentando e nem querendo humilhar ninguém, só estou devaneando a respeito dos líderes religiosos que deixam muito a desejar e ainda, quando pisam claramente na bola, batem no peito dizendo que não são perfeitos. Provavelmente a única verdade que podemos confiar de olhos fechados.
Por exemplo, o apóstolo Valdomiro… Alguns anos atrás ouvi ele pregando a respeito de pobreza e etc. Até aí, não o conhecia muito bem e cheguei até mesmo a pensar que poderíamos estar diante de um novo religioso realmente sério. Até o momento que li a respeito da vida de Santiago, um homem que prega a humildade, mas que mora em um bairro super chique e ainda conta com carros importados para a família. Sério… Tudo bem, carro para pessoas assim são importantes, mas importados? Poxa, além de um IPVA pesado, sua manutenção não é feita pelo José, o mecânico de nossa esquina.
Outro ponto sobre o Santiago que sempre me incomodou é essa história de apóstolo… Ele escreveu alguma parte da bíblia? Escreverá? Será mais um apócrifo revelador das verdades ocorridas em um determinado tempo? Ele realmente faz milagres ou é como algumas pessoas dizem por aí: que pagam para interpretarem possessões ou doenças? E por que depois de dois mil e poucos anos ele foi o primeiro apóstolo a surgir?
Agora, quanto ao Edir Macedo, acho que foi longe demais ao fazer um Templo de Salomão nas proximidades da Celso Garcia. Ao meu ver, não é para honra e para Glória de Deus não, mas sim para sua própria. Está escrito na Bíblia que o Templo de Salomão realmente seria reconstruído, mas não no Brasil, ainda mais nessa crise violenta que tem aumentado a fila de desempregados, e o pior, alguns desses desempregados contribuem com seus cartões de débitos e crédito no Templo. Na inauguração foi cobrado uma taxa dos visitantes, hoje é gratuito, entretanto, existem uma série de regras para serem seguidas e caso o fiel queira conhecer o museu que é abrigado pelo Templo, a quantia é de R$ 25,00.
Por que tenho medo do Edir? Bom, na Bíblia está escrito que falsos profetas surgirão e que muitos tentarão imitar os milagres de Cristo. Engraçado que ninguém tenta imitar as melhores partes de Jesus Cristo, como por exemplo: Jesus não ia de carro para as cidades que precisa ir, ia andando; ele falava para multidões, mas tudo que pedia aos ouvintes era apenas que amassem a Deus sobre todas as coisas, ele não pedia dinheiro, pelo contrário, dava tudo que tinha e chegou a dividir pães e peixes para multidões.
Cristo também contava com doze amigos que, com o passar do tempo foram chamados de apóstolos. Esses apóstolos também viviam segundo as condições de seu líder, quando algum escorregava na tentação de arranjar um dinheirinho, Cristo o colocava em seu lugar. Outra coisa, as roupas de Jesus não eram de marca e muito menos costuradas por mãos profissionais de grandes grifes da Galileia daquela época. Bem diferente dos seguidores de hoje. Cristo não cobrava seus sermões, não exortava a multidão a darem tudo que tinham em seus bolsos, mas sim, tudo aquilo que tinham em seus corações.
Como disse em algum momento desse enorme texto, peço desculpas caso seja algum fiel e se incomode com minhas palavras. Sei que algumas igrejas necessitam de doações para continuarem operantes, para pagar água, luz, limpeza e ainda fazer alguns serviços comunitários, sobre isso, não sou contra. Entretanto, não acho condizente um pastor que goza de saúde e força, viver pagando suas contas com o dinheiro dos fiéis, seria mais bonito se ele trabalhasse e pagasse o seu próprio dizimo para algo que ele acredita, caso não acreditasse, para que pregaria, não é verdade?