Esquecimento – Flávio Martins Cardoso

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              Hoje acordei muito disposto. Disposto ao esquecimento.

              De agora em diante dela não me lembrarei mais. Aquela que se foi sem ao menos olhar para trás.

              Nada me fará desistir deste intento, dela nem me lembro.

              Não lembro mais que a esta hora, sete da manhã, já havia uma mensagem me desejando bom dia. Me perguntava como foi a noite, se havia dormido bem, me alimentado, essas coisas que ninguém dá importância e não lembra mesmo.

              Sinceramente, nem mais me passava pela cabeça um tipo de mensagem assim. Penso sim que dela já esqueci sem esforço.

              Vou para cozinha sem me esquecer, é claro, do propósito do dia. Não mais me lembrar nem sei de quem.

              Passo um café como de costume, pouco açúcar e muito pó. Já ela, esquentava água no microondas, que coisa absurda. É outra coisa que também não me recordo mais. Detalhes de uma preparação de café. Bestagem essa. Quem se lembraria daquele café com água aquecida em microondas? Tenho que reconhecer que o café era mesmo uma delícia. Mas que café? Não me lembro.

              Me sento para ler as primeiras notícias. Essa era a hora que eu reenviava a mensagem de bom dia, geralmente com uma foto da xícara de café. Ela adorava esse ritual que não me lembro mais.

              Por alguns minutos nos dedicávamos a uma troca de mensagens até sem sentido, mas com muitos sentimentos, todos por mim já nesta manhã esquecidos.

              Era uma companhia, mesmo que a distância, de todas as minhas manhãs. Deletadas estão. Lembranças insignificantes me são.

              Ainda estando à mesa do escritório como é meu costume, me ponho a pensar nos primeiros rabiscos poéticos.

              Sem recorrer é claro a nenhuma lembrança daquela que fora um dia a inspiração de todas as poesias. Hoje não, hoje é diferente. Minha inspiração é agora, neste instante um esquecimento constante. Nada de rememorar.

              Reminiscências de lado me concentro no trabalho. Quando me dou conta horas se passaram e o branco papel nada recebeu. Onde estive esse tempo todo? Me pergunto. Meio dia e nada produzido. Não deveria pausar, mas é hora de o almoço preparar.

              Busco no armário da cozinha uma panela de pressão. Minha excelente ideia, carne de panela.

              Não é por nada não, nem mesmo porque ela gostava de carne na panela de pressão. É um desejo meu, dela não lembro. Nem mesmo faço questão. Carne de panela é minha predileção.

              Almoço posto sento-me à mesa, sozinho estou, minha solidão, minha liberdade, minha carne de panela sem recordação.

              O dia corre sem muitas memórias me chegarem a consciência. Nem tristeza sinto. As lágrimas me molham o rosto, são ciscos de um ontem que insistem em cair.

              Para lá e para cá fico a pensar. Pensar em como escrever não tendo mais a quem dedicar.

              Me lembro sim do propósito. Este está vivo, mais vivo do que qualquer outra coisa ou pessoa que não me lembro quem.

              O dia lá vai caminhando para o fim. Sol se pondo cá dentro de mim.

              As lembranças do primeiro encontro voltam a me assombrar em contraste com o propósito de não mais me lembrar.

              Elas são insistentes, não me deixam em paz neste dia quente de solidão.

              Aproveito para um banho tomar. Não estou disposto hoje para um jantar. Me pareceu a cozinha não ser um bom lugar para se estar e meu propósito praticar.

              Ao tocar o sabonete um cheiro me traz a mente o perfume de alguém que não sei quem é. Como não tenho outro faço dele uso sem muito pensar. Troco-me e me coloco a deitar.

              Não pego logo a dormir e não entendo a causa. Nada me preocupa ou me faz perder o sono. Mas o que não me lembro estava a fazer falta. Um boa noite a mim desejado, não sei, não me lembro dessa diária delicadeza por ela ofertada.

              Vencido pelo cansaço, os olhos fechados, mas nem assim consigo o propósito alcançar, com ela passo a noite a sonhar. Lembranças que não me lembro insistem em ficar.

              Como é difícil o esquecimento praticar quando quem se ama na memória está.

@catadordeletras

(Texto desenvolvido para o desafio de prosa poética da Revista Villa das Palavras – seu comentário é muito importante)


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14 comentários em “Esquecimento – Flávio Martins Cardoso”

  1. Parabéns!! Através de poucas e simples palavras consegue atingir várias pessoas com seus sentimentos (aqueles que muitos não gostam de pronunciar…) Foco, Força e Fé, você chegará ao seu grande sucesso!

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  2. Excelente. A dialética do esquecimento. Resignificar, esquecer são fundamentais para dar sentido ao presente e construir um horizonte de expectativa. Lembrar de tudo não dá, que diga o Fumes, o memorioso do Borges

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