Kiss… Não quero mais

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Você pode estranhar o título desta crônica, achar que é um erro ou simplesmente, desejar o mesmo que tomei para cometer tal gafe, mas, para os amigos que, como eu, curtem o bom e velho Heavy Metal, sabem que é apenas uma brincadeira com o nome de uma das maiores bandas de Hard Rock do planeta: o Kiss.
Confesso que não sou um dos maiores fãs da banda, contudo, assumo que a banda criou hinos que ficarão eternamente tatuados na alma do mundo. Quem nunca se empolgou com Detroit Rock City, Rock and Roll all Night, ou nunca teve tanto medo quanto eu ao ouvir pela primeira vez “I Love It Loud”?
Meu primeiro contato com o Kiss foi no ano de 1983 e por isso, podemos dizer que foi a primeira banda de… digamos, metal que ouvi em toda minha vida. Tudo bem, naquela época não fiquei nenhum pouco fascinado pela música e muito menos pela postura dos músicos, na verdade, fiquei foi com medo.
Lembro que esse primeiro contato rolou na cidade de São Bernardo do Campo, em um dos muitos passeios que fazia na casa de meus primos. Eles eram um pouco mais velhos que eu, tempo suficiente para saberem de garotas e músicas. Eu ainda estava na onda de brincar e brigar pela posse do controle remoto da televisão.
Na casa de meus primos existia essa regra, aquele que ligava a televisão primeiro, era o todo poderoso do controle remoto, aquele que decidia o que os demais mortais assistiriam no decorrer do dia, mas, como sempre fui bom de cama, nem preciso dizer que esse poder nunca estava em minhas mãos… por isso usava os poderes da manha, mas por serem mais velhos, nunca dava certo.
Meus primos gostavam de me assustar e tirar uma com a minha cara, confesso que fui uma criança bem boboca, daquelas que acredita em tudo que ouve e talvez seja por essa razão que pastei tanto na minha infância. O que isso tem a ver com o Kiss? Tudo, só dei uma desviada para você compreender o grau de minha leseira.
O Kiss estava na cidade e, mesmo com dez anos, minha imaginação ia longe. Lembro de ter ouvido a respeito que um dos caras da banda matava pintinhos no palco… Achei aquilo um absurdo e me deixou morrendo de medo, ainda mais com aquela mascara de morcego estampada nos olhos, aquela língua que parecia uma serpente se contorcendo… Era um demônio sobre a terra para meus olhos.
Lembro de ter ouvido a respeito do significado do nome da banda, que na verdade era uma sigla “K.I.S.S.” que significava “Garotos a Serviço de Satã”. Uma banda com esse nome não podia ser coisa boa, ainda mais com um cara que se esforçava tanto para fazer cara de possuído. E o pior de tudo, o Kiss era a sensação da época, nada mais comum do que inserções no decorrer da programação dos canais e a empolgação dos primos que curtiam a banda, ou seja, em qualquer horário, lá estava o Gene mostrando sua língua enorme.
Com o decorrer das horas, meus primos acabaram saindo para a casa de seus amigos nas proximidades e acabei ficando sozinho em casa. Minha mãe e minha tia estavam fora também, ou seja, eu era o todo poderoso do controle, a televisão era minha, preciosa… Fui mudando de canal em busca de algum desenho, mas já era tarde e não haveria nada de interessante para mim, de repente, uma chuva torrencial começou a cair e não demorou para relâmpagos e trovões me aterrorizarem. 
Eu estava sozinho em casa. Naquela época não tinha essas coisas de deixar as crianças sozinhas ou não, tudo era muito mais tranquilo do que é hoje. E por isso, lá estava eu, na sala, sentado, sozinho, com meus dez anos de idade e, para minha infelicidade, com o Gene Simmons mostrando sua língua sangrenta em uma das várias inserções e ainda, com a música I Love to Loud de fundo… Palco para grandes pesadelos. 
O medo me dominou por completo, coloquei as pernas sobre o sofá para evitar que alguém me puxasse para baixo dele. Na televisão, o vídeo de I Love it Loud passava com aquela energia perturbadora e densa que a envolve. Subitamente, as luzes da sala se apagaram e os relâmpagos clareavam tudo, não demorou muito tempo para eu imaginar a máscara de Gene estampada em uma das paredes da casa de minha tia. 
Meu medo foi tanto que lembro de ter subido correndo para os quartos superiores… Até hoje me questiono por que as pessoas em meio ao desespero acabam correndo justamente para os lugares piores? Eu podia ter corrido para a rua, mas não, se o Gene saísse da televisão como a Samara, eu seria uma presa fácil lá em cima para ele.
Mas, graças a Deus, Gene Simmons continuou dentro da televisão cantando suas músicas aterrorizantes e meus primos surgiram na sala com seus amigos rindo do meu desespero enquanto subia correndo para os quartos. E agora, depois de tantos anos, paro para escrever essa experiência divertida ao som de I Love it Loud, sem medo algum de ser feliz.
Mas, com dez anos, não tinha como saber que aqueles mascarados estavam fazendo de conta, não podia simplesmente duvidar do pacto com o diabo por causa da balada “I Still Love You” do mesmo álbum de I Love it Loud… Cara, sinceramente? Uma banda que faz pacto com diabo não faz baladinhas… não é preconceito, não tenho nada contra aqueles que penhoraram suas almas… afinal de contas, cada um vende o peixe da melhor maneira que pode, como o Gene e suas caras e bocas, devorador de criancinhas indefesas. 

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