Queria voltar no tempo de Machado de Assis, José de Alencar, Jorge Amado e por aí vai. E sabe por quê? Por que naquela época existia respeito aos talentos que brotavam pelo país. As editoras daquela época, visavam lucros como qualquer outra empresa, no entanto, não era apenas o lucro, era muito mais do que isso, havia uma paixão, um amor pelas artes e um orgulho por descobrir fulano ou sicrano de Assis, ou de Alencar ou até mesmo de algum novo Coelho. Naquela época a editora não trabalhava apenas a história, mas também o autor, peça importante para um grande sucesso.

Mas hoje em dia as coisas estão muito, mas muito, mas muito diferentes.

Infelizmente, vejo a maioria das editoras como urubus que sobrevoam os restos mortais de algum animal que já foi parcialmente consumido pelos vermes. Aves de rapinas que se importam somente em saciar sua fome. Nem como vermes são, que trabalham na decomposição para transformar a morte em vida de alguma maneira. Digo isto, pois já vi grandes escritores morrendo com seus sonhos ressequidos por esse tipo de empresas que visam somente seus próprios interesses, como os urubus que só pensam em saciar a fome.
 
 
E digo isso com propriedade, sou autor e já corri atrás de editoras, já mandei originais, bati em portas, compareci a reuniões que me deixaram extasiados diante da possibilidade real de lançar um livro, porém, quando as reuniões acabavam, lá vinham às condições para realizar meu sonho de lançar ao mundo meu trabalho. E, acreditem, algumas editoras chegaram a um exagero tão grande que até mesmo eu, sendo ruim de matemática, me toquei que iria perder mais do que ganhar.
 
Rapidinho, só para você entender: uma dessas editoras me cobrou R$ 15,000.00 por 1,500 livros. Como são legais, parcelariam esse valor em seis vezes e além disso, como eram muito legais, pegariam mil livros e espalhariam pelas melhores livrarias do Brasil. Não lembro se pagariam os 10% de capa, mas provavelmente sim. Os outros 500 livros, a editora me entregaria para recuperar o investimento, ou seja, se eu tiver 500 amigos que compre o livro, até conseguiria a curto prazo, recuperar o dinheiro…
 
 
Mas o que revolta é que a editora ganha os R$ 15,000.00, mais o valor dos outros 1,000 livros que, vendido a R$ 35,00, com margem de lucro de R$ 20,00, com digamos os 10% do autor, a editora facilmente ganha mais R$ 15,000.00 se o livro do autor cair no gosto da galera. Compreendeu?

Agora, se o autor não der nada pra editora, não tem problema, os 15 do autor garantem a impressão, capista, diagramador, revisor e ainda sobra um troco.

Isso aconteceu comigo há muito tempo atrás e, infelizmente, era uma tendência do mercado editorial que dá mais atenção para os autores internacionais… Ah, um pequeno detalhe a respeito da editora que usei como exemplo. Dos autores nacionais cobravam horrores, dos internacionais (e lançou muitos hein) provavelmente pagava os direitos autorais como manda o figurino.
 
Isso é outra coisa que incomoda muito. Nós, brasileiros não damos uma chance para os nossos próprios artistas, cantores, escritores, atores, que representam o país para os demais países. Supervalorizamos o que vem de fora, como importados… Esquecemos grandes nomes do terror nacional, grandes nomes do romance nacional, os contistas, cronistas, poetas e etc. Autores que vão morrendo enquanto se amarguram com essa realidade tão cruel.

Isso é como ser casado com alguém e saber que esse alguém prefere o vizinho.

Falando de autores que foram morrendo, lembro de um amigo que conheci em uma espécie de livraria na Praça da República, bem, não era uma livraria, era uma espécie de puxadinho de livros atrás de uma banca de jornal. Ali conheci um rapaz que nem sequer se parecia com um autor, andava com um skate debaixo do braço, um bonezinho e uma mochila cheia de livros e dicionários.
 
 
Cheguei a ler alguns de seus contos e, sinceramente, eram muito bem escritos. Tudo bem que o meu amigo parecia com um filho bastardo de Stephen King, mas, essas coisas um autor em início de carreira acaba pegando sem perceber e perde com o tempo e também sem perceber. Além de escrever tínhamos em comum a busca por editoras e a quantidade de nãos que íamos acumulando. Com o passar do tempo, fomos perdendo contato e tudo que tenho hoje daquele rapaz é a lembrança de uma boa história que li.
 
Isso sem mencionar aqueles que foram deixando de lado a arte das letras por não terem a oportunidade de apresentarem seus materiais, por não terem a oportunidade de mostrar, ter critica e melhorar em trabalhos seguintes, sem mencionar aqueles que, frustrados, preferiram ignorar o dom de contar histórias dizendo para si mesmos que a vida precisava ser encarada com os pés no chão, sem ficar sonhando com bobagens escritas no papel.

Engolir sapos já é muito difícil para muitas pessoas, imagine engolir o dom que é algo que nasce com a gente…

E, hoje em dia, infelizmente, o que mais temos por aí são editoras que se aproveitam de pessoas que acreditam em seus dons, que acabam pagando para ter seus trabalhos lançados, que buscam em ferramentas online a venda de livros que, em determinados casos, deixa o produto muito mais caro.
 
 
Editoras que, ao receber um original ligam para o autor onde quer que ele esteja para dizer que sua obra é fantástica, mas sequer leram mais da metade ou sequer quatro páginas… O que querem é apenas lançar e serem pagos para isso, a qualidade não importa desde que as contas da empresa estejam pagas.
 
Mais triste que isso é ver autores embarcando nesse tipo de atividade, prometendo mundos e fundos para os novos autores que comprarem seus cursos ou ingressarem em projetos que visam lançamentos futuros ou coisa do gênero. Sinceramente, isso é algo que me entristece demais, na minha concepção, autores não deveriam se envolver em coisas desse gênero, deveriam sim, dar dicas para jovens autores, gratuitamente. Escritores ganham a vida escrevendo e não ensinando.

Quem ganha à vida ensinando são os professores, não é verdade?

Depois de muito tempo, relancei meu livro A Casa de Ossos, é uma história de terror que envolve o leitor do início ao fim. Não vou dizer que a história é perfeita, pois ainda tenho muito que aprender e sempre terei, ou seja, não espere que ache alguma de minhas ou de outras perfeitas, pois não acharei, somos seres humanos em constante aprendizado.
 
 
Falar que sou o melhor autor do mundo agora é cuspir para cima… E é exatamente por essa consciência que não tenho interesse algum em dar cursos de como criar isso ou aquilo. Quando me pedem alguma dica, dou com prazer e de graça. Como disse, se um dia tencionar ganhar dinheiro com outros autores, com certeza será montando minha própria editora e, mesmo assim, somente quando puder montar um esquema como foi na época de Machado, Alencar e Jorge Amado, não somente pela necessidade do dinheiro, mas pelo amor a literatura e pelo orgulho de trazer ao mundo um novo talento brasileiro.
 
NR.: Não sou contra algum autor dar uma oficina de escrita, mas sim aqueles que ora inventa uma coisa, ora outra. Autores inventam estórias e não cursos e projetos para ganhar dinheiro com a a escrita de alguma maneira.