Não deixe para amanhã, quem você pode ver hoje

Compartilhe agora mesmo

Não me recordo do momento que nasci, segundo minha mãe, era uma deliciosa tarde de domingo, porém, acho que a parte deliciosa só começou mesmo depois que todo trabalho de parto finalmente chegou ao fim com o primeiro som que minha boca emitiu. Acho que foi exatamente nesse momento que tudo que sofreu, passou a valer a pena, pelo menos até crescer e sair debaixo da proteção de suas asas. Com certeza, se as nossas mães pudessem, nos aprisionariam novamente no útero para nos proteger desse mundo que a cada dia, se torna cada vez mais caótico.

                Enfim, não me recordo de absolutamente nada que aconteceu do meu primeiro ano até os sete anos e, mesmo assim, as lembranças são bem dispersas e distantes. Claro que sempre tem aquela traquinagem digna de ser lembrada em todas reuniões de família, essas sempre nos acompanham pela vida inteira, e geralmente, são aquelas que realmente queríamos esquecer, mas não permitem. Não me recordo do que aconteceu na minha primeira festa de aniversário, lembro apenas que na época, a máquina fotográfica colorida, ainda não existia (ou era cara demais para meus pais), meu álbum é completamente preto e branco.

                Então, vamos guardando pequenos recortes e mais alguns flashes que vira e mexe, surgem para nos trazer aquele gosto amargo de saudade aos lábios, de tempos que não haviam obrigações, preocupações e muito menos, pandemia. Naquela época, as únicas pandemias que conhecíamos eram fatos distantes que, se não decorássemos, tiraríamos notas baixas e perderíamos a bicicleta que prometiam nos dar no natal. Acho que essa era a moda de barganhar dos pais.  E olha que era para nosso próprio bem! Mas, crianças, não pensam em coisas sérias, para elas, tudo é uma festa, tudo é diversão, ainda mais quando alguém lhe dá atenção e os trata como uma pessoa sem ser criança.

                E, isso me traz à lembrança, uma criança que não tinha muito noção de onde estava entrando. Na época, se não me falha a memória, estava no auge dos meus vinte e poucos anos e curtíamos a vida adoidado, digo curtíamos, por que tínhamos um bando de roqueiros ensandecidos que viviam enfurnados uns nas casas dos outros. Foi uma época bem divertida, onde as amizades marcaram grande parte de toda nossa adolescência e meio que ajudaram para nos tornarmos os homens que somos hoje…

                Na casa de um dos amigos, além de ser o caçula da família, ainda era o mais novo, ou seja, vira e mexe, seus sobrinhos vinham nos ver balançando a cabeça ao som de guitarras distorcidas, baterias avassaladoras e cantores que mais pareciam uma galinha sendo esgoelada. Isso sem mencionar o cheiro de álcool que permeava o local e se espalhavam ao redor por causa do suor de nossas peles… Era uma coisa de louco, gente, vocês não tem noção… Enfim, na casa do Marcelo, um dos seus sobrinhos vinham ver os loucos fazendo seus cérebros pegar no tranco, mas não saia correndo como as meninas. Ele ficava por ali, ouvindo as conversas e sorrindo.

                Dessa época, guarda ótimas memórias. Lembro dos porres homéricos que tomávamos, das besteiras que fazíamos por causa dos efeitos do álcool, das conversas sem sentido que somente os bêbados podem conceber. Foi uma época divertida para todos nós, podemos dizer que foi uma adolescência saudável, nenhum se envolveu com drogas, quebrando aquela velha frase muito comum: sexo, drogas e rock’n’roll, para ser sincero como não se pode ser, acho que na época, não passávamos de cinco caras virgens.

                Como dizia: o sobrinho do Marcelo, quando o som rolava em sua casa, sempre estava rondando, tinha o cabelo de Juruna. Lembro que era muito preto e muito liso, por isso, não tinha jeito, só ficava lambidão. Era o garoto do sorriso, e não pense que era aquele sorriso forçado que toda criança aprende para agradar adultos, o sorriso do Diego era algo realmente sincero, ele realmente gostava de estar ali com aquele bando de marmanjos embriagados (exceto pelo Guismo e Alex, eles nunca foram de beber, já os outros… bebiam por eles), duvido muito que ele entendia o que estava acontecendo ali, mas acho que nunca se importou com isso, ele apenas queria estar em um lugar onde pessoas mais velhas lhe davam atenção e zuavam com ele.

                E por que estou escrevendo tudo isso? Por que durante muitos anos, acabei esquecendo aquele garoto bonito, de sorriso sincero e olhos brilhantes, mas hoje, aquele mesmo rostinho lindo não sai de minha cabeça, infelizmente, o Diego deixou esse plano, foi sorrir para os anjos, para Jesus e também para nosso Big Boss, acho que ele riria se ouvisse-me chamando Deus de Big Boss… E percebo, neste momento, com o coração apertado, que os sentimentos que são sinceros, não se perdem por completo, eles podem ficar adormecidos, mas acabam despertando, infelizmente, meus sentimentos despertaram tarde demais.

                Neste momento, me arrependo de não ter visitado a família, de ter falado para o Diego homenzarrão que o conhecia desde “piquitito”, de não ter-lhe dado um abraço e ficado feliz por vê-lo se tornar um homem de verdade, mas sem deixar aquele mesmo lindo sorriso para trás. Isso é algo que deve ser comemorado, ainda mais nos dias de hoje, ao rever um amigo das antigas e saber que está bem, com família e feliz… Para mim é uma felicidade e motivo de orgulho, afinal, parafraseando o filme: eu sei o que vocês fizeram na adolescência passada, posso dizer que a maioria de nossas, aprontamos demais. Mas, graças a Deus, estão todos firmes, fortes e operantes.

                Em conversas, já chegamos a marcar um dia para se encontrar, mas com essa pandemia e todos já passando dos “entas”, é melhor esperar para que tudo realmente esteja seguro, afinal, se antigamente já não sabíamos o dia de amanhã, hoje, temos que dar graças por vermos o dia de amanhã. Penso nas famílias que tiveram entes queridos ceifados por esse mal inesperado, negligenciado e subestimado. Penso na dor, na falta, na saudade e também na revolta, afinal, tem muita gente por aí dizendo que isso é ficção, infelizmente, ficção é apenas para as pessoas que vivem com suas cabeças na lua. Espero que você ria dessa aí no céu, Diego!

Meus sinceros votos de carinho para todos os familiares, que Deus console seus corações nesse momento tão triste.


Compartilhe agora mesmo

3 comentários em “Não deixe para amanhã, quem você pode ver hoje”

Deixe um comentário