Nao sonhe que terminou

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Esses dias ouvi uma canção no rádio que me arremeteu diretamente ao meu passado estudantil. Confesso que nunca fui um dos garotos mais populares da escola, pelo contrário, era sempre aquele que era jogado no meio do corredor polonês, que era arrastado para o fundão quando brincávamos de mãe da rua e era o único que ficava no banco quando os demais alunos montavam times de futebol, acho que isso deixava claro minha predisposição para os esportes.
Mas, na sala de aula… Bom, as coisas continuavam da mesma maneira, quer dizer, mudavam um pouco, mas não tanto. Era o típico garoto que sofria bullying o tempo inteiro, mas, esse termo faz parte da era da informática, naquele tempo computador era coisa de milionário… Lembro até de um passeio que fiz com a escola para a Estação Ciências na Lapa, um lugar que sempre gostei de ir, meu primeiro contato com a modernidade que estava para vir.
Lá estava em exposição uma máquina que parecia um fliperama, mas o intuito daquele imenso equipamento era interligar pessoas de locais diferentes e distantes, ou seja, estava diante dos primeiros passos da internet. Fiquei louco por conversar naquela máquina, provavelmente naquele ano devo ter pedido uma daquela ao Papai Noel… Aquela máquina me permitia conversar com garotas de uma maneira diferente, me sentia protegido por trás da tela, mas, como sonho de pobre dura pouco e a fila estava enorme, não pude continuar conversando com uma garota que nem lembro mais o nome…
Frustrante? Muito, mas não como algumas lembranças daquela velha época de escola. Lembro de uma vez que estava correndo para ir ao banheiro e alguns garotos valentões me impediram de entrar, estava muito apertado e não queria correr o risco de passar o restante das aulas com as calças molhadas, por isso, acabei correndo para o muro da escola e fiz ali mesmo. O que tem demais? Tudo… Naquela época a escola em que estudava tinha um diretor que parecia um ditador, Ed Getulio, lembro dele até hoje, alto, de olhos claros, cabelos lisos e grisalhos, acho que ele repuxava de uma das pernas e um dos olhos era mais baixo, isso sem mencionar que era simplesmente terrível. Era o tipo de cara que subia no banco para ver quem estava cantando o Hino Nacional ou apenas fingia. Todo mundo tinha medo dele.
E foi nesse fatídico dia que ele me pegou fazendo xixi no muro… Pra que, quando ele percebeu que estava ali, ele simplesmente gritou tão alto que o pátio inteiro ouviu: O Xixinomuro, vem comigo. Nem preciso falar que, além de cortar minha urina, senti meu corpo inteiro se retesar aos sons de risadas. Naquele ano, meu apelido foi xixinomuro. Tão carinhoso quanto um apelido que uma mui amiga de classe me dera: horrorivel, ou seja, uma mistura de horrível com horror, acho que ela me via com uma das maiores aberrações da escola. Tudo bem que, depois de alguns anos, nos reencontramos e fiquei feliz quando ela me mediu de cima abaixo de boca aberta, acho que já não era tão mais horrorivel quanto ela achava, agora ela…
Bom, você deve estar se perguntando o que tudo isso tem a ver com um título que parece que grita um texto de autoajuda, não é verdade? Mas tem a ver com minhas lembranças de escola, ao ouvir a música no rádio percebi que a galera de hoje não tem mais a dança da vassoura, (tem a dança dos banquinhos nos bailes funks, mas isso não conta, não éramos tão perversos quanto hoje). Era muito comum naquelas festinhas de classe, uma oportunidade para nos aproximar daquela garota que gostávamos e poder estar mais perto do que o comum.
Lembro que em muitos bailinhos, cheguei perto de minha Afrodite, era maravilhoso trocar os dois pra cá e dois pra lá com ela. Parecia que estava nas nuvens, sentindo seu perfume, tendo seu corpo bem pertinho do meu… Era tão emocionante que não dava para falar, caso dissesse alguma coisa, talvez erraria todos os passos, na minha cabeça, eu contava, dois pra cá, dois pra lá… Às vezes ensaiava alguma palavra, esperava o momento certo para dizer alguma coisa que mudasse toda nossa situação, mas eis que, inesperadamente, lá vinha um dos amigos com a vassoura em mãos, varrendo minhas chances para debaixo do tapete da sala de aula. E assim, ficava, com cara de tacho, oferecendo a vassoura esperando que alguém aceitasse, mas, eu era o único que aceitava e até hoje, ao ouvir Don’t dream it’s over do Crowded House, lembro desses momentos únicos que fazem parte da história de um garoto que cresceu e se tornou um homem, que não faz mais xixinomuro.

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