As coisas começaram a complicar para mim na quinta série, época que nem tamanho de gente eu tinha, pior que a maioria dos alunos da série anterior estavam novamente compartilhando conhecimentos e aumentando alguns traumas.

Naquela época não existia esse tal de bullying. Isso é algo pós internet, pós mundo globalizado, os problemas psicológicos antigamente eram resolvidos na unha ou na ponta de uma cinta. Tudo bem, isso soou um pouco violento demais, mas, era a realidade da década de 70, 80 e 90. Se alguém voltasse no tempo e perguntasse o que significa bulliyng naquela época, com certeza alguém responderia que tem a ver com o termo bulinar.

Mas, voltando ao assunto… Como não podíamos ficar na classe nas aulas vagas, descíamos para o pátio e lá, meninos e meninas se separavam para passarem aquele tempo da melhor maneira possível. Os meninos curtiam brincar de mãe da rua. Já ouviu falar sobre essa brincadeira? Vou explicar nos bastidores para vocês, ok?

Por ser o menor e, com provavelmente, o mais gostoso, fácil e apetitoso de se bater, meus amigos maiores sempre me arrastavam para o terreno proibido e me cobriam de porrada e pontapés. Atualmente isso é abuso e agressão, mas naquela época era um bando de crianças passando o tempo com brincadeiras estúpidas.

Além dessa brincadeira (para mim que era a vítima predileta), os coleguinhas de classe tinham a péssima ideia de colocar algum papel nas costas dos alunos mais desatentos com a seguinte frase: me chute.

Acho que não preciso dizer que já levei muitos e muitos chutes por causas desses bilhetinhos carinhosos pendurados nas costas. E o Pior era que a escola inteira tirava uma casquinha do mais fraco, oprimido e envergonhado aluno. E acabava se tornando uma espécie de sinalizador para marcar o mais tonto de todos. Agora, quando minha classe queria dar uma de terrorista, um corredor polonês era um verdadeiro pesadelo.

Isso sem falar das garotas que sempre preferiam os caras mais velhos, aqueles que se destacavam, seja pelo tamanho ou pelas aptidões esportivas. Quanto aos raquíticos e franzinos, ficavam apenas chupando o dedo ou dançando com a vassoura nos bailinhos de final de ano. Um dos primeiros apelidos nasceu por causa desses abusos por causa de minha natureza franzina.

Na minha sala se concentrava os melhores desportistas, como nunca fui dado aos esportes. Nas jogos era sempre deixado para mofar no banco, mas quando os demais alunos precisavam de uma ajuda em suas composições (hoje mais conhecido como redação) ou alguma conta que havia entendido, ai lembravam de mim e se dirigiam como se eu fosse gente.

Para você ter uma ideia de como era zoado nos meus tempos de escola, uma de minhas companheiras de classe, me apelidara de horrorivel, é mole? Segundo ela era uma mistura de horroroso com horrível, pode uma coisa dessas? Bastava ela olhar para mim sentado na primeira carteira da fileira que ela sussurrava: horrorivel. Isso era frustrante.

Anos depois fui a forra. Eu já com dezessete para dezoito anos quando encontrei essa garota que me dera apelido tão carinhoso. Ela me olhou de cima abaixo e vi que seus olhos se arregalaram. Pois é, o horrorivel tinha crescido e ela parecia estar impressionada com isso, talvez até tenha pensado. “Nossa a história do patinho feio é real”

Também olhei para ela e fiquei surpreso ao perceber que não era mais a mesma. Estava com algumas carnes caindo entre os espaços vagos de sua roupa aparentemente curtas demais. Em nosso tempo de escola, ela era uma das deusas que decoravam a imaginação de muitos garotinhos.

Lembro que nem chegou a mencionar meu nome, ficou apenas me olhando com aqueles olhos arregalados. Será que ela pensou: nossa, o horrorivel até que não ficou tão ruim assim… Claro que esse bullying foi apenas o começo. Era um imã para esse tipo de tiração.

Como disse, por ser pequeno, raquítico, loirinho de olhos claros, cabelinho cortado como se alguém tivesse usado uma tigela sobre minha cabeça e nerd, despertava o lado Ari Toledo de todo mundo. Certa vez, durante a educação física me deu aquela vontade de ir ao banheiro.

Pedi ao professor que, ao ver minha expressão de desespero, me liberou prontamente. Dei a volta na quadra, mas ao chegar às escadas, uma turma de alunos me cercou prometendo umas porradas.

Como não era besta, corri pelo gramado, ladeando o muro, mas a turma queria contemplar em meu rosto a expressão do desespero e me cercaram. Acuado e percebendo que estava prestes a fazer xixi nas calças, (o que seria ainda mais vergonhoso), tirei o bingolinho para fora e comecei a fazer xixi ali no muro.

Hoje em dia os diretores são mais maleáveis e passam aqueles ares de amigos, mas no meu tempo, faziam questão de parecerem com verdadeiros carrascos. Ed Getúlio tinha tudo para ser isso e mais um pouco, claudicava de uma das pernas e ainda um de seus olhos era meio fechados devido algum problema que ninguém nunca ousou perguntar. Quando ele gritava, nem precisava estar apertado para molhar as calças.

E lá estava eu fazendo meu xixizinho quando de repente ouvi um “hei” com uma voz mais grossa, retumbante como se fosse um trovão. No mesmo segundo, subiu aquele gelo pela espinha, todo mundo tremia ao ouvir aquela voz autoritária. Ele continuou: O Xixinomuro, desce aqui agora! Todos riram, inclusive o diretor, claro, discretamente e nascia ali meu novo apelido: xixinomuro.

Só para finalizar esse novo apelido, o senhor Ed me levou até sua sala de torturas e perguntou o por que havia feito aquilo, expliquei, ele apenas riu disfarçadamente e mandou voltar para minha classe, ao chegar, nem preciso dizer que todos começaram a dar altas gargalhadas.

Pelo menos não estava com as calças molhadas, o que provavelmente seria bem pior e achei que o evento seria esquecido no decorrer de alguns dias, mas não foi… Tudo bem que, com o tempo, ele foi soando mais agradável, afinal de contas, japoneses são bem inteligentes. E durou algumas semanas, mas, os meus queridos companheiros precisavam de algo mais pesado, mais depreciativo, mais digno de manter vivo na memória de todos por longos anos.

Outro apelido que me marcou por décadas, aconteceu de uma maneira completamente inusitada e inesperada. Não lembro muito bem se nasceu quando cursava o final da quinta ou início da sexta série, mas enfim, sei que o ano era 1985, e foi marcado pelo surgimento de um professor de Geografia que arrancava suspiros da maioria das garotas.

Ele era barbudão, sorridente e muito gente fina, pelo menos até o momento que, sem mais nem menos, virou para a classe e disse: O Adriano me falou que queria ser como a Anabela da novela para casar comigo…

Seríssimooooo gente e foi do nada… Ele estava passando uma matéria na lousa e de repente, virou para a classe e soltou essa. Acho que o único que não estava rindo daquela história sem pé nem cabeça era eu. Esse apelido acabou me perseguindo por anos e anos. Sei que tenho paciência, mas sou facilmente vencido pelo cansaço e insistência.

Por isso, depois de umas quinze chamadas de Anabela em um único dia, impossível não sair xingando, mostrando minha indignação com aquele apelido que até hoje tento descobrir a razão. Não me recordo se o professor usava aliança ou não, mas aquilo ficou muito estranho para meu lado e para o dele, mas os velhos tempos não são como os de hoje.

Claro que tive outros apelidos no decorrer dos anos, mas, felizmente, não os julgava tão debochados, por exemplo: ao ingressar no primeiro colegial, acabei sendo alcunhado de Xuxa e acredito que se aparecer na Casa Verde Alta hoje, os amigos das antigas ainda me chamarão de Xuxa, mesmo estando ligeiramente grisalho como se fosse um Gandalf mais jovem.

Já com a galera do metal dos velhos tempos, era Bon Jovi (hoje parece um elogio, mas na época era utilizado para chamar o amigo delicadamente de viadinho) e dos meus tempos de galeria do Rock era Sebastião Barbie ou simplesmente Barbie, mesmo sendo uma Barbie que mais parecia uma porta reta e com pelos, mas tudo bem.

Lembrar dessas épocas, em um 2019 tão cimentado de preconceitos e maldade é simplesmente uma dádiva divina, afinal de contas, como disse o grande filosofo “o que não mata, nos fortalece” mas dependendo do que tenha acontecido, pode gerar ótimas risadas com os amigos de antigamente que, já não são mais os bambambãs da sala de aula.

Todos barrigudinhos e meio caidinhos e eu, continuando a ser uma Barbie tabua que está evoluindo para uma Barbie Gandalf, mas neste anel aqui, ninguém vai tocar fogo!