O dia de amanhã, com certeza só pertence a Deus

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Hoje em dia, não sabemos quando seremos surpreendidos por algum marginal. A onda de violência tem crescido tanto que nosso derradeiro destino pode nos encontrar em qualquer lugar, seja: na fila do supermercado, passeando em algum parque, indo para casa dentro de um coletivo ou em qualquer outro lugar, até mesmo em nossas próprias casas.

Vivemos um tempo de incertezas, onde sair de casa, mesmo que seja para ir à padaria ao lado, já nos coloca em risco. Os mais religiosos saem sob a proteção do sinal da cruz e pequenas orações à Deus, já os não religiosos, saem como se o mundo fosse realmente gerado por uma explosão cósmica, tudo bem que, quando a corda aperta no pescoço, independente da crença, é Deus e nossa mãe que chamamos em nossas mentes.

Atualmente, não saímos para trabalhar com a certeza que voltaremos para casa. Não sabemos o que pode nos acontecer estando correndo atrás do sustento de nossas famílias. Quando abordados por algum marginal, qualquer movimento brusco é suficiente para sermos brutalizados ou até mesmo assassinados. E o pior, eles não tem o que perder e nós temos tudo.

Para piorar ainda mais a situação, estamos cercados por assaltantes. Alguns operam em campo, abordando suas vitimas em qualquer lugar propício, outros, estão atrás de mesas caras vestidos com seus ternos caros que nem mesmo pagaram por ele devido ao vale terno. Ou seja, nós, brasileiros, estamos sempre convivendo com assaltos e abusos de poder.

E tudo isso acaba refletindo no quadro econômico do país, afinal de contas, o dinheiro dessas regalias precisa sair de algum lugar e para maquiar o roubo, estão sempre criando novos impostos e aumentando aqueles que já existem. Resultado, empresas pequenas quebram, pessoas são despedidas e o índice de desemprego vai aumentando a cada dia mais. Isso sem mencionar a tensão na cabeça do desempregado que sempre sustentou sua família. E agora, Juvenal?

Neste momento, vivo algo assim e acredito, infelizmente, que não sou o único. Quando menor de idade, não tinha experiência para trabalhar, hoje, com 45 anos nas costas, tenho experiência demais e um salário muito alto registrado na carteira. Algumas empresas utilizam essa desculpa de salário alto para dispensar candidatos que passaram de certa idade, candidatos que nem sequer podem sonhar com se aposentar um dia. Eles não querem sujar a carteira, como se alguém desempregado se importasse com uma anotação de um salário que sabe, não ganhará mais.

Não importa quanto, chega uma idade que os sonhos vão se perdendo na dureza da realidade. E já ficamos felizes em ganhar o suficiente para pagarmos nossas contas e alimentar nossas famílias, isso já é o suficiente para deitarmos a cabeça em nossos travesseiros e agradecer por não faltar o básico para aqueles que amamos e nos importamos. E para conseguir isso, fazemos de tudo, incluindo, nos transformar em motoristas de aplicativos.

Dirigir pela Uber, 99 ou Cabefy já salvou muitas pessoas da falência. É uma maneira digna de conseguir alguns trocados e garantir o bem-estar na família. É um trabalho árduo e muitas vezes, não tão gratificante quanto deveria, afinal de contas, muitos passageiros entram em nossos carros com ares imponentes, como se estivessem nos fazendo um favor.

E, não digo todos os motoristas, da mesma forma que existem passageiros simpáticos e antipáticos, também existem motoristas bons e ruins. Independente disso, estamos sempre preocupados em oferecer o melhor serviço, estar com o carro sempre perfumado, limpo, em boas condições e sempre com um sorriso no rosto, mesmo quando estamos preocupados com o aplicativo que não chama, com o número de quilômetros que vemos avançando rapidamente, entre outros gastos com o nosso bem.

Alguns motoristas, levam o passageiro onde precisam sem olhar seu destino, eu mesmo já cruzei a Paraisópolis para deixar um grupo de amigos em um baile Funk. Se fiquei com medo? Claro, mas sou da seguinte filosofia: se estou na rua é para trabalhar, não conseguimos prever quando seremos assaltados, eu mesmo já fui assaltado em plena São Judas, região central de São Paulo, lugar que dirigia com tranquilidade.

Fiquei traumatizado com esse assalto e fiquei sem rodar pelo aplicativo durante três meses. Por sorte, os assaltantes levaram apenas meu dinheiro, celular, a coragem e o prazer de circular por aí. No mesmo dia noticiei o ocorrido à Uber devido à perda do celular, realizei todos os tramites e imaginei que tomariam alguma atitude para amenizar um pouco minha experiência negativa. Algo que não aconteceu.

Para incentivar seus motoristas, a Uber realizou uma nova tentativa criando categorias com certas regalias mediante pontuação, taxa de aceitação, entre outros. Para se manter na categoria, o motorista precisaria conseguir atingir uma certa pontuação (que vem através de corridas realizadas). Eu fazia parte da categoria “Ouro” até o momento do assalto, traumatizado e com medo de ser assassinado por aí, acabei ficando uns três meses sem dirigir, tempo este para conseguirmos a pontuação e nos manter em nossa categoria.

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Como sou pai de família, quando percebi que o cerco estava apertando, enfrentei o medo de perder tudo e voltei a dirigir por aí. Motoristas sempre estão olhando suas pontuações e sabia que perderia minha categoria “Ouro” mesmo assim, continuei seguindo nessa categoria até o dia 01 de outubro, limite para conseguir a pontuação necessária. Não sou mais ouro, mas, quer saber, não me importo, prefiro ser um nível abaixo para atender pessoas mais simples, mais simpáticas e que agradecerão de coração ao leva-las para algum lugar.

Mas, por que estou dizendo tudo isso? Amanhã, segundo grupos de motoristas de aplicativos, teremos a primeira paralisação da classe contra essa onda de violência e também, em homenagem aos companheiros assassinados em serviço. É uma oportunidade para encostarmos nossos carros e mostrar para a população o quão importante é o serviço que prestamos para a sociedade. Somos nós que entramos em comunidades de madrugada para socorrer alguma criança, adulto ou idoso, nos tornar alvos de crimes só tornará sua comunidade desprovida desse tipo de serviço.

E também para aquelas madames e senhores que mal nos olham na cara, que ficam com seus olhos voltados para seus celulares como se o Brasil estivesse com carros guiados por computadores. Saiba que somos seres humanos e da mesma forma que querem ser bem tratados, nós também desejamos, ainda mais por ser o nosso carro que está sofrendo desgaste, por estarmos tão preocupados com sua segurança que dirigimos com atenção ainda mais redobrada. Nós somos motoristas de aplicativos e vocês deveriam ser um pouco mais amistosos com pessoas responsáveis por suas vidas.

Precisamos parar amanhã, todos nós, sei que amanhã poderá existir mais corridas para aqueles que não aderirem, mas, lembre-se: poderia ser algum amigo ou até mesmo você ter perdido seu bem mais precioso: sua vida. Faça pela classe de motoristas de aplicativos, proteste contra a violência que, particularmente, não deixará de existir por causa de uma manifestação, mas pelo menos as empresas que trabalhamos e os usuários, perceberão a necessidade de nossos serviços.

A Uber se pronunciou a respeito da violência e diz desenvolver ferramentas especiais para evitar esse tipo de situação. Isso é sério? Quando poderemos prever que alguém entrará armado em uma escola assassinando crianças? Ou em algum cinema? Mal prevemos o rompimento de uma barreira mesmo percebendo complicações em sua estrutura… Como a Uber ou qualquer outra pode prever quando acontecerá um crime?

Informar destino não nos passa uma verdadeira segurança, afinal de contas, podemos ser assaltados em qualquer lugar do mundo, isso faz parte da natureza humana desde os mais tenros primórdios. O que não podemos é facilitar e tomar certos cuidados para evitar esse tipo de acontecimento. Infelizmente, não existem ferramentas para livrar alguém da violência, mas existem outras formas de demonstrar a importância do motorista para a empresa.

Para concluir: no dia que fui assaltado, a Uber mesmo sabendo, descontou o valor que o assaltante levou, sequer perguntou a respeito do meu celular Moto Z que foi levado. Se a tecnologia que falam for realmente verdadeira, por que sequer não ligaram para mim ao perceber que havia parado de dirigir desde o dia do assalto? Perdi a categoria “Ouro” por que não rodei, os serviços que presto continuam sendo os mesmos, eles não poderiam simplesmente ter somado um com mais um e mostrado ao parceiro (como eles dizem via mensagem) que “verdadeiramente” estão atentos para nós?

Infelizmente, não temos como parar a violência com uma paralisação, mas apenas com a conscientização que prestamos um serviço útil para as comunidades. Podemos homenagear os motoristas que perderam suas vidas em serviço, mas, principalmente, podemos e devemos mostrar para as empresas e para os usuários que somos feitos de carne e osso, que merecemos não somente o respeito, mas também consideração profissional. E que não trabalhamos de motoristas de aplicativo por que sonhamos desde pequenos, mas sim pela necessidade e pelo atual cenário político brasileiro.

Acredite, agradecemos a oportunidade de estarmos conseguindo ganhar dinheiro honestamente dirigindo por aí, mas como disse, somos feitos de carne e osso e merecemos respeito e consideração. E a você que é motorista de aplicativo, convido para compartilhar esse texto com seus grupos para que nosso protesto seja realmente percebido pelo país.

Nos unimos em grupos para trocar ideias e experiências, nos unimos em restaurantes para almoçar, nos unimos para tomar aquela cervejinha no final de nosso expediente. Agora convido para nos unir para o bem geral de nossa classe trabalhadora.

Texto por: Adriano Villa


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