O perfume da cândida – Adriano Villa

Compartilhe agora mesmo

Como pequenas lembranças podem nos arrancar de nosso presente e nos lançar em períodos tão distantes… Em momentos que a vida era algo completamente diferente de nossa atualidade. Como dizem: éramos felizes e não sabíamos… Na verdade, não é uma questão de saber ou não, mas sim, de um simples ponto de vista.

Quando somos crianças, vemos o mundo de uma forma completamente diferente. Ele é repleto de sonhos, de possibilidades que nos impulsionam a correr contra o tempo, entre tantos sonhos, sonhamos em ser adultos, completamente libertos das rédeas de nossos pais e do período escolar.

Entretanto, quando esse momento finalmente chega, percebemos o quão inocente pode ser a mente de uma criança. E como adultos, repletos de obrigações e ainda, sem a tão sonhada liberdade (ter que trabalhar para pagar contas não é a liberdade pra ninguém), quando chegamos à maioridade, percebemos que alguns sonhos, eram apenas sonhos impossíveis, como um outro sonho que brota em nossas entranhas ainda mais faminto pela realização: de voltarmos a ser crianças.

De voltarmos no tempo onde tudo que importava eram as bolinhas de gude que tínhamos, onde as pipas realizavam o desejo de voarmos entre as nuvens; onde as bonecas eram filhas obedientes que não corriam riscos ou exigiam muito mais do que nossas imaginações; onde nossa única obrigação era tirar notas azuis para podermos passar de ano e ganharmos os tão esperados presentes prometidos.

Tudo que nos resta são lembranças de um tempo que não volta mais e que, sentimos, não ter aproveitado como deveríamos, mas, fazer o que… éramos crianças e as crianças não tem muita noção do mundo imenso que está ao seu redor, não é verdade? Vamos usar a atual situação para exemplificar: hoje, em tempos de pandemia, uma criança de sete anos sabe do perigo, mas está muito distante de sua real compreensão…

Enquanto nós, adultos, precisamos tomar todos os cuidados possíveis para que não façamos parte de uma estatística que vem crescendo a cada dia mais, mesmo levando em consideração a flexibilização da quarentena, uma flexibilização que acontece não devido ao controle da ameaça viral, mas pela ameaça dos adultos não terem como alimentar ou manter o lar de sua família.

Hoje, as coisas mudaram e precisamos tomar muito cuidado. Não basta lavar as mãos e utilizar máscara, é preciso muito mais do que isso, é preciso ter cuidado com o que consumimos, de higienizar todos os produtos que compramos. A pandemia nos lembrou dessa necessidade tão negligenciada, afinal, a maioria dos produtos que compramos já foram tocados por Deus lá sabe quem e com o que…

Estamos aprendendo a ter mais consciência sobre as necessidades de cuidado na procedência do que compramos. Tudo bem, o que fazia em duas horas, atualmente, faço em cinco. Isso sem mencionar as aventuras terríveis e completamente dispensáveis que ocorrem nos corredores dos supermercados. Já percebeu que sempre tem alguém largando o carrinho no meio do corredor enquanto olha a prateleira? Já percebeu que os fabricantes de manteiga não se preocuparam em distinguir a manteiga com sal da sem sal de uma forma mais fácil? Já percebeu que basta estarmos com pressa para que a fila que escolhemos ser a mais demorada de todas?

Aposto que nenhum de nós sonhou com tais situações quando crianças…

Mas, nós, brasileiros não desistimos nunca e ainda contamos com a capacidade de ver positividade até onde não existe. Acabei de chegar do mercado, carreguei tanto peso que sinto meus dedos arderem, mesmo assim, não é a pior parte. Encho um balde com água e misturo uma boa dose de água sanitária, jogo nos pés e logo em seguida, com um pano surrado, sento-me no chão e começo a limpar todos os produtos sentindo o cheiro forte de cândida ardendo minhas narinas.

Viajo na limpeza e deixo a mente trafegar entre as recordações… Geralmente lembro da primeira gráfica que trabalhei. Tinha apenas quatorze anos e além de trabalhar no acabamento, ainda tinha que varrer, limpar e até mesmo fazer café. Não preciso dizer que, com essa idade, não tinha experiência alguma para limpar qualquer coisa, por isso, não me envergonho de ter inventado de lavar o banheiro com cândida comigo trancado lá dentro. Passei tanto mal que cheguei a pensar que morreria ao sentir as vistas escurecendo e a cabeça parecendo prestes a explodir.

Mas, as lembranças que tenho ao limpar minhas compras, vão além desse momento terrível, remontam os tempos que não havia preocupações, que o mundo ao meu redor era um imenso mundo de grandes possibilidades e sonhos. O cheiro de cândida me faz lembrar de minha mãe, era o cheiro que sentia quando inventava de caçar lêndeas, ou quando me levava para alguma venda ou casa de amigas.

Podia sentir o cheiro forte, ao mesmo tempo ameno e familiar invadindo minhas narinas. Naquela época, minha mãe foi deixando de sorrir, alguém usurpou uma das principais razões de sua felicidade, deixando-a, sozinha com as outras quatro razões que dependiam completamente dela. Além da subtração de seu sorriso, perdeu também a percepção de dar carinho aos filhos, estava muito preocupada com o dinheiro que precisava ganhar para nos alimentar, não havia tempo para carinhos ou chamengos, muito menos para lavar as mãos e se livrar daquele odor que, acabou se tornando uma espécie de fragrância de uma flor tão especial para mim.

Hoje, homem formado, aqui sentado limpando as mercadorias, fecho os olhos e me recordo daqueles velhos tempos, onde a vida era feita de brincadeiras, de sonhos e de algumas reclamações de professores por causa de minha bagunça. Hoje, penso em minha mãe e entendo que não havia tempo para dar carinho como esperávamos naquela época. Seu carinho vinha de maneiras diferentes, como aquela bandeja de Danone que comprava uma vez por mês e que comíamos vagarosamente como se degustássemos a mais deliciosa iguaria. Eu e meus irmãos esperávamos por esse dia ansiosamente, este momento único.

Já guardei todas as compras, mas ainda não tomei banho. Quero sentir por mais alguns minutos o cheiro de cândida em minhas mãos, lembrar-me um pouco mais dos meus tempos de criança, lembrar do prazer e do gosto da colher molhada com aquele Danone… Alias, a marca existe até hoje, já comprei uma cartela para acionar minha memória, mas não trouxe o mesmo sentimento, pelo menos não como o cheiro da cândida que, agora, me parece com um perfume de uma flor mais que especial.

(Texto desenvolvido para o desafio de prosa poética da Revista Villa das Palavras – seu comentário é muito importante)


Compartilhe agora mesmo

4 comentários em “O perfume da cândida – Adriano Villa”

  1. Cheiro de candida ninguém merece 😂, brincadeiras a parte, gostei . Pequenos detalhes, aromas ficam sempre marcados em nós. Quando vejo aquela garrafa de pinho amarelinha que tem no mercado e sinto o cheiro, lembro da minha avó. Lembro tb que detestava aquele cheiro quando era criança, pq era forte. Mas há alguns anos, eu estava no mercado e de repente deu vontade de comprar um só pra sentir o cheiro e lembrar da minha velhinha. Enfim, parabéns pelo texto.

    Responder
  2. Cheiro de cândida é tenso pra mim kkkk mas é engraçado ver como certas coisas remetem a momentos únicos e peculiares pra outras pessoas. Muito bom.

    Responder

Deixe um comentário