O primeiro proctologista a gente nunca esquece

(Para ouvir o podcast, vá até o final do texto)

Quando nós, homens, chegamos a uma determinada faixa de nosso prazo de validade, nada mais indicado que ficarmos de olhos bem abertos para a saúde. Comer gordura em excesso, fumar, beber, ficar sem dormir, são alguns prazeres que precisamos ir deixando de lado, para nos dedicar à saúde, ainda mais hoje em dia que precisamos viver um pouco mais para aproveitar pelo menos um ano de nossa aposentadoria.

Ao chegarmos à marca de nossas quarenta primaveras, ou melhor, homens preferem algo menos florido, mais melancólico, não é verdade? Pois bem, ao chegarmos à marca de quarenta outonos, os cuidados e as idas ao médico começam a ficarem mais necessárias. Nada mais justo, afinal de contas, quanto mais velho ficamos, mais caros ficam os planos de saúde, ou seja, ficar velho custa caro. Por esse motivo, aconselho: Tem plano? Sentiu uma dorzinha qualquer, corre para usar e não esqueça de fazer um drama, só para justificar o valor cobrado.

E falando em dorzinha, vou fazer uma revelação um tanto que íntima e constrangedora, por isso, espero fique somente entre eu e você, ok? E vou começar com essa afirmação: sou extremamente bom de cama. Deito e durmo. Provavelmente se acontecesse o apocalipse à noite, com certeza perderia toda festividade.

Podemos dizer que, quando me entrego nos braços de Morpheus, me entrego de verdade, quer dizer… Quando uma dor que assola minha existência não ataca. É uma dor tão lancinante, excruciante, desesperadora que nem o mundo dos sonhos consegue manter minha alma cativa. É simplesmente monstruosa, digna de estar em algum guinners book.

Que raio de dor é essa? Já vou revelar. Antes, gostaria de compartilhar uma curiosidade que tenho: por que a maioria das dores que sentimos é à noite? Alguém saberia me responder?

As crianças no decorrer do dia correm de um lado para o outro exibindo uma saúde de ferro, mas, surpreendentemente, à noite, do nada, acabam espirrando, com febre, entre outros males que fazem os pais correrem para o hospital tarde da noite. E geralmente acontece quando vai passar aquele filme na TV, ou aquele clássico que esperou por meses ou quando está sem preocupações na cabeça e quer dar aquela namorada com a esposa.

Isso já aconteceu contigo? É simplesmente revoltante, não? E as dores de dente? Nossa, essa tem a capacidade de enlouquecer qualquer um. Eu mesmo já cheguei a enfiar um alicate para tentar arrancar o infeliz. Infelizmente, não consegui e fiquei a noite inteira acordado, sofrendo, sendo franco e sem exageros, quase morrendo. Pior que no bairro onde morava, não tinha uma farmácia de plantão, havia nos bairros mais chiques, mas não tinha condução e ir a pé, estava fora de cogitação. Agora me veio outra pergunta na cabeça: Será que dor de dente é um castigo pelo nosso pouco caso com a saúde bocal?

E agora chegou o momento de falar sobre a minha dor. E como não podia ser diferente, a dor que faz minhas pernas bambearem costuma atacar bem depois que me deito. Sabe aquele momento que você não está deste e nem do outro lado? Ainda está fazendo a passagem e, subitamente, alguém parece te puxar com tudo para sua realidade? É em um momento assim que começa meu sofrimento.

Ergo-me da cama contrariado, corro até a caixa de remédios, tomo um postan e começo a andar de um lado para o outro até a medicação fazer efeito. Andar ameniza um pouco a dor, mas ela continua como uma pulsação maligna, lembrando-me que ainda está por ali. Depois de muitos minutos, ela abranda, respiro fundo e me dirijo para a cama me sentindo despedaçado. Deito-me mais cansado do que levantei e, em algumas situações, após me cobrir e encontrar a posição perfeita, eis que ela volta com tudo, me fazendo repetir todo o processo novamente.

Além de terrível é uma dor que durante muito tempo me preocupou devido ao local atacado: lá no fiofox. Provavelmente próximo da tão perigosa e silenciosa, próstata. Você sabia que o câncer no reto está em segundo lugar e o de próstata em quinto? Entendeu minha preocupação? E, particularmente, nunca ouvi ninguém reclamando: nossa, estou com uma dor no cu hoje. Cu não dói, é como os mamilos, só sabemos que existe quando sente frio ou precisa deles para alguma coisa.

E tem outro detalhe importante que preciso contar para entender meus medos mais profundos. Geralmente, esse tipo de exame é feito aos quarenta e cinco anos, mas em homens com histórico familiar é preciso avaliar o quanto antes. E meu saudoso avô tinha esse problema, ou seja, conto com a possibilidade de desenvolver esse problema. Entendeu meu desespero? Sem mencionar na densidade da dor, vou descrevê-la: pense em um ferro em brasa sendo enfiado lentamente e deixado ali até esfriar… Essa é a sensação.

Apesar de minhas preocupações. Como qualquer bom homem, demorei e ponderei durante muitos meses para marcar um médico para descobrir a razão daquelas dores. Se poderia ser problemas na próstata, no reto ou qualquer outra enfermidade relacionada. Minha mulher tomou a iniciativa e marcou uma visita ao médico. Já sabendo que reclamaria até as tampas, teve o cuidado de encontrar um consultório próximo à região que trabalhava na época. Claro que reclamei, mas ela disse: vai lá, conversa com ele, tira suas dúvidas… De repente não é nada. Acabei comprando aquela conversa, afinal de contas, pimenta no cu dos outros é refresco, não é verdade?

Na época, trabalhava nas proximidades do Shopping Paulista e, dali para a Vila Mariana, nada mais eram que três estações de metro, algo extremamente rápido. Como um bom brasileiro, me aproveitei dessa proximidade para terminar todo meu trabalho e sair em direção ao médico meia hora antes de minha consulta. Fiz o planejado e, quando o relógio marcou 18h30, me despedi de todos e parti para meu compromisso mal sabendo o que me esperava.

Ao chegar à estação Brigadeiro, me deparei com uma fila tão grande, mas tão grande que tinha gente comprando coxinhas no Ragazzo sem sair de seu lugar na fila. Nesse momento, bateu o desespero… Me arrependi amargamente de não ter comprado o bilhete àquela tarde e tudo que me restava eram duas opções: ir de ônibus ou de a pé. Descartei o ônibus por ser sexta-feira e pelas vias estarem congestionadas, acabei ficando com a segunda opção e parti quase correndo para meu destino.

Após uma caminhada quase corrida, cheguei à recepção do consultório com a impressão de estar com o rosto em chamas e o corpo minando suor pelos poros. Balbuciei um cumprimento sem fôlego para a recepcionista e pediu para entrar e aguardar em uma antessala que o dr. Adriano me chamaria em breve.

Sentei de pernas abertas desejando estar na Escócia para estar de saía e poder dar uma ventilada nas minhas regiões baixas. Como não podia fazer isso, tive que me contentar em abrir as pernas o mais que conseguia, aproveitei e tirei a jaqueta de couro (isso mesmo, caminhei rapidamente trajando uma jaqueta, pelo simples fato de não gostar de andar segurando nada nas mãos) coloquei ao meu lado e fiquei sentado recobrando o fôlego e fazendo uma anotação mental: próximo passo, parar de fumar.

Subitamente ouvi meu nome sendo chamado e me deparei com um doutor Adriano sorridente e aparentemente simpático. Nos cumprimentamos e nos sentamos em nossos respectivos lugares. O que te trouxe até meu consultório, senhor Adriano? Comecei a contar sobre aquela dor terrível que costumava atacar somente de madrugada e que tinha capacidade de me despertar do sono mais profundo. O doutor, estudado como era, percebendo meu receio de ser algum problema hereditário, descartou a hipótese dizendo que era apenas câimbra retal. Câimbra retal? Sério? Aí é lugar para sentir câimbra? Se falasse que banana era bom para câimbra acho que teria voado em seu pescoço sobre a mesa.

Explicou também que era algo muito comum nas mulheres e, entre linhas, acabou afirmando que eu fazia parte dos poucos homens que sofriam com esse mal. Me aconselhou a manter a calma devido ao fato que a dor surge com mais facilidade depois de um nervoso ou forte emoção. Mal de um forever sensível a fortes emoções. Mas, enfim… O papo estava agradável e eu, despreocupado com a possibilidade de ser alguma coisa errada com minha próstata que já marcava 45000 quilômetros rodados, quer dizer, rodados não, de uso e meu uso. Pelo menos até ouvir as seguintes palavras do doutor Adriano.

Mas, vamos dar uma olhada nisso aí… Baixe as calças e a cueca até os joelhos, deite na maca com a cabeça virada para a parede e em posição fetal.

Ao ouvir tais palavras, meus olhos se arregalaram como a piada da formiguinha. Automaticamente olhei para as mãos do médico sobre a mesa e notei dedos finos e curtos… fiz ufa cerebralmente falando e, como não havia como fugir, acabei fazendo o ordenado. Enquanto baixava minhas calças, vi meu dia passar em minha cabeça, não estava preparado para aquele tipo de exame.

O banho que havia tomado pela manhã já havia vencido há muito tempo e o pior, havia usado o banheiro no final do expediente como de costume e, sexta-feira, louco para chegar em casa… Fiquei pensando se havia realizado o serviço direito ou não e, enquanto o médico se entretia colocando as luvas, como se eu não estivesse ali, confessei: doutor, não estava preparado para esse tipo de exame, fui ao banheiro antes de sair da agência e vim andando da Paulista até aqui. Ele olhou para mim por alguns segundos, nem esboçou um sorriso mostrando humanidade e respondeu: não tem problema, estou acostumado com isso. Deite-se!

Aquele “deite-se” aos meus ouvidos soou como uma ordem. Pensei em responder que era meu primeiro e que aquilo tinha que ser feito com carinho, mas não havia dado abertura para qualquer observação de sua vítima. Não se preocupou com meus sentimentos e muito menos em criar algum tipo de clima. Deitei-me como uma senhora velhinha e caquética de programa, daquelas que tem que cobrar pouco e ainda agradecer por ser utilizada como recipiente e aguardei.

Subitamente ouvi um barulho logo atrás que parecia com um som de pum, mas não era meu, naquele momento, acho que não passaria nem agulha. O som viera da garrafa de vaselina, pensei comigo: bom, pelo menos não vai a seco. Senti a mão esquerda tão fria quanto à atitude do médico repousando delicadamente sobre minha nádega direita e, subitamente, senti… A respiração parou por alguns segundos, não me lembro de ter reparado em uma parede por tanto tempo.

Senti o médico cutucando como se procurasse alguma coisa que perdera ali dentro. Essa busca incansável e incomoda durou apenas alguns segundos, mas pareceram horas. Inesperadamente, ele tirou o dedo e disse para me vestir, levantei-me rapidamente, de cabeça baixa, vesti a cueca, a calça e imaginei-me saindo correndo dali, mas o médico pediu para sentar e tive que olhar o meu deflorador frente a frente. Ele uniu os dedos sobre a mesa e aquilo me preocupou, permaneci aguardando, com as pernas juntas e as mãos espalmadas entre minhas coxas, procurei algum sorriso ou sentimento que coroasse nosso contato intimo, mas, sério estava, sério ficou.

Ele notou a tensão crescente em meus olhos e finalmente, desembuchou: olha Adriano, está tudo bem com sua próstata, mas recomendo, devido ao fato de ter histórico familiar que consulte um especialista. Ao ouvir aquelas palavras, com certeza devo ter tido alguma reação extremamente perplexa, ele emendou: não é minha especialidade. Se não me engano, ele ainda me passou uma guia para procurar um especialista, mas, naquele momento, meu cérebro estava começando a entrar em pane. Levantei, me despedi sem jeito e caminhei até a estação Santa Cruz sentindo as popas deslizando uma sobre a outra como se houvesse perdido algum parafuso que impedisse daquilo acontecer.

Ao chegar em casa, minha esposa estava ocupada com uma amiga de infância que decidiu aparecer em casa para colocar a fofoca em dia. Curiosa como ela é, vim no caminho inteiro morrendo de vergonha, com certeza ficaria no meu ouvido para contar a experiência. Me senti aliviado quando encontrei a bendita da amiga, mas, para meu desespero, ela já sabia e as duas começaram a pedir para que narrasse tudo e o pior, como se fosse um de meus livros, ou seja, repleto de detalhes. Como não teria escapatória, contei tudo, do momento que cheguei à saída e da sensação de ter perdido algum tipo de parafuso. Elas riram e eis que ouço da amiga de minha esposa: Isso é justiça divina. O meu vai passar por isso e com certeza vou olhar para os olhos dele e dizer: pimenta no cu dos outros é refresco!

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