No ano de 1993, vasculhando relíquias em um sebo da cidade de São Paulo, acabei esbarrando na trilogia de O Senhor dos Anéis, não a trilogia unificada lançada depois do sucesso dos filmes, mas a antiga, em três grandes volumes, com direito a glossário, adendos, observações e todos os detalhes de uma obra completa e praticamente perfeita.

Tudo bem que algumas pessoas acham a narrativa de Tolkien morosa, algumas vão ainda mais longe para destacar a riqueza dos detalhes do livro, mencionado que, “se Tolkien visse uma formiga caminhando, ele narraria cada um de seus passos”. Claro que esse é um tipo de opinião varia de pessoa para pessoa, algumas preferem atenção para os mínimos detalhes.

Mas, voltando… Na década de noventa, ninguém sequer imaginava que algum dia, algum louco varrido transformaria aquela obra em filme. Tudo bem que já havia uma animação inspirada na sociedade do anel, mas nada assim tão impressionante. Lembro que, nessa época, trabalhava para a Warner Bros., e estava sempre a par dos novos projetos da sétima arte.

Peter Jackson e a sua ousadia para levar o Senhor dos Anéis para as telas

No final da década de noventa, eis que fico sabendo a respeito de um projeto ousado de um diretor praticamente desconhecido, seu nome, Peter Jackson que decidira levar às telas uma das maiores e celebres obras literárias do mundo “O Senhor dos Anéis”. Quando essa informação vazou no mundo, aconteceu um alvoroço em torno das expectativas e, como sempre, o pensamento foi “essa é uma obra impossível de ser filmada”. Bom, Peter Jackson provou que o impossível não existe.

Claro que, muitos detalhes da obra original foram simplesmente deixados de lado para o bem de toda trama construída. Muitos fãs torceram o nariz pela ausência de alguns personagens importantes que acabamos conhecendo no decorrer dos três livros. Mas, não tem jeito, algumas obras, até mesmo as mais simples, precisam de uma certa adaptada, afinal de contas, nossa mente não precisa de nenhum fundo verde para criar belos cenários.

Aliás, outro detalhe, Peter Jackson com certeza é um fã dos trabalhos de Tolkien. Por se tratar de um livro repleto de detalhes e completamente interligado, roteirizar uma obra de tal relevância para o mundo é um verdadeiro trabalho de artesão. Algo que, mesmo filtrando algumas informações, Peter Jackson soube fazer como ninguém.

2001 – A Sociedade do Anel chega às telas para delírio dos fãs

E depois de muitos anos trabalhando sobre a obra de Tolkien, finalmente chega o ano de 2001 e o lançamento da primeira parte da trilogia “A Sociedade do Anel”. O filme foi um grande sucesso de bilheteria e de crítica, ou seja, o projeto ousado de um apaixonado pela obra, tornava-se um sucesso mundial.

Como na época trabalhava para os produtores da obra, tive o prazer em assistir ao filme em primeira mão, ou seja, lá estava eu sentado em um cinema que não me lembro mais, acompanhado de diversos profissionais da mídia e até mesmo, algumas celebridades. Recordo que Paulo Ricardo sentou algumas cadeiras a minha frente, quando tentei me levantar para dizer “oi” minha chefe me puxou de volta pedindo para que não a fizesse passar vergonha.

Como dizem por aí: manda quem pode e obedece quem tem juízo. Fiquei no meu canto esperando o momento que havia esperado durante muitos e muitos meses ansiosamente. Fiquei deslumbrado com as imagens interpretadas por Peter Jackson, o elenco também foi extremamente bem escolhido, tudo bem que não achei Hugo Weaving uma bela escolha para o papel de um belo elfo, mas, fazer o que né…

Assisti ao filme quase se respirar para que o som de meus pulmões trabalhando não atrapalhassem minha atenção. Estar naquele momento, sentado e assistindo um livro que sou apaixonado era uma realização sem tamanho. Claro que não fiquei procurando os pontos negativos do roteiro e das ausências de algumas situações, sei que alguns filmes precisam passar por algumas adaptações para funcionarem bem na tela. E foi com esse pensamento que, ao chegar ao final do filme, aplaudimos uma obra de arte.

Naquele dia, sai do evento com uma série de brindes de O Senhor dos Anéis, algo muito comum preparado pela Warner para entregar aos convidados felizardos, mas também, com um aperto terrível no peito. Fiquei deslumbrado com a obra de Peter Jackson, mas ela respeitaria a ordem dos livros, ou seja, teria mais três partes… Partes estas que, segundo informações, já estavam gravadas, pelo que parece, Peter Jackson filmou a obra completa de O Senhor dos Anéis na sequência, mas entregando ao público, periodicamente.

E foi nesse momento que me peguei ainda mais apreensivo… Sabe aquele “e se” que às vezes chega sem mais nem menos em nossa cabeça? Pois é, ele veio e comecei a olhar para os lados antes de atravessar mais que duas vezes. Eu precisava me manter vivo para poder assistir a continuação daquela obra de arte. Às vezes chegava a cogitar como faria para assistir caso o pior acontecesse… Será que possuir um corpo é algo fácil de realizar?

2002 – O Senhor dos Anéis: As Duas Torres

E finalmente, depois de um ano de apreensão, eis que me encontrava novamente sentado em um dos eventos da Warner para assistir a continuação de O Senhor dos Anéis. Finalmente poderia ver a continuação dos próximos eventos de Frodo e Sam e também, acompanhar a saga dos três remanescentes da Sociedade do Anel que corriam para salvar Merry e Pippin dos Uruks.

Uma coisa que achei muito bacana no desenrolar da trama desenvolvida por Peter Jackson, foi a disputa entre Gmili e Legolas sobre quem conseguia matar mais inimigos. Os fãs de Tolkien, sabem que esses dois povos não se davam muito bem, mas, no desenrolar da saga do anel, vemos uma amizade nascendo de uma maneira tão sincera e ponderada. E o mais interessante, apesar de suas diferenças, ambos sempre estavam perto um do outro e mais perto ainda quando estavam cavalgando.

O Senhor dos Anéis: As Duas Torres apresentou para o público uma das personagens mais misteriosas e enigmáticas do universo Tolkiano, os Entes, que foram extremamente importantes para a queda de uma das torres que dá nome ao livro, a torre de Isengard, lar de Saruman, o branco, que foi interpretado por um dos atores mais queridos e mais saudosos do cinema: Christopher Lee com sua voz de trovão.

Talvez, muitas pessoas que acham a escrita de Tolkien lenta, acham que, na verdade, deva ser alguma espécie de ente devido às características. Confesso que houve algumas partes que torcia para o Barbávore falar mais rápido para poder assistir tudo que tinha direito, eu achava que toda aquela calma poderia arrancar alguns minutos preciosos da parte dois, consequentemente, indo para a parte três.

Mas, O Senhor dos Anéis: As Duas Torres terminou como A Sociedade do Anel, com um desfecho próprio, mas deixando algumas pontas soltas para serem presas e amarradas em seu grandioso desfecho, que, infelizmente, teria que esperar mais um ano para assistir.

2003 – O Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei

E eis que chega o último filme da saga do Um Anel. E graças aos deuses, lá estava eu, sentado, com o coração batendo apreensivamente, roendo os restos de minhas unhas na expectativa do capítulo final daquela aventura.

Um detalhe super importante quando você assiste aos filmes com uma bagagem de informação, é conseguir distinguir os personagens, conhecer suas origens e por que estão ali, por exemplo, somente os fãs da obra escrita sabem que Laracna é filha de Ungoliant, um espírito do mal em forma de aranha que chegou a Terra-Média juntamente com Melkor, um dos mais poderosos Ainur que se voltou para o lado negro da força e mestre de Sauron.

São esses detalhes que tornam o background de O Senhor dos Anéis ainda mais atraente e completo, mas, voltando ao filme. No decorrer da película, vemos a amizade de Gmili e Legolas ainda mais forte e, apesar da fama dos anões de serem carrancudos e sérios, o Gmili que conhecemos na trilogia de Peter Jackson é um anão que vai conquistando a simpatia de todos.

Tanto é que uma parte, na minha opinião, muito emocionante é quando Gmili, diante dos portões negros de Mordor, diz: “Jamais pensei que lutaria ao lado de um elfo” e Legolas pergunta: “E ao lado de um amigo?” Essa é uma das partes mais emocionantes em minha opinião de toda saga do anel.

Outro detalhe que chamo atenção é para os verdadeiros heróis que destruíram o anel de poder que ligava o espirito de Sauron a Terra-Média. Frodo já havia sucumbido ao poder do anel, só não havia percebido. Provavelmente, Gandalf havia previsto que aquele era um fardo muito pesado e precisaria de alguém descansado e leal para ficar de pé caso o portador do anel sucumbisse.

Samwise teve um papel crucial e de extrema importância no desenrolar de toda trama, tudo bem que em alguns diálogos entre ele e o senhor Bolseiro deu a entender outro tipo de amizade entre eles, mas claro, isso é uma maldade que apenas nós observamos. Havia uma linda e sincera amizade e, não digo nada se Sam não daria sua vida para salvar o amigo.

E por fim, o verdadeiro responsável por atirar o anel no fogo da montanha foi ninguém menos que, Gollum, a criatura que perdeu há muitos anos atrás e que dedicou sua vida inteira a recuperá-lo. Gandalf fala algo a respeito da importância do papel de Gollum para Terra-Média e por essa razão, por saber tantas coisas, acredito que desde o início o mago sabia que Frodo precisaria de uma força. E se não fosse ele ter arrancado o anel do dedo de Frodo, vai saber o que poderia ter acontecido…

Gollum ficou tão contente por recuperar seu precioso que só se deu conta quando seu corpo mergulhou na lava incandescente

Algo que podemos ver na formação da Sociedade do Anel. Frodo e Sam jamais conseguiriam atravessar regiões que estavam começando a entrar em guerra, era preciso criar uma distração para que conseguissem passar despercebidos pelos seguidores de Sauron, como Aragorn sugeriu depois de ter vencido a batalha por Gondor. Se não fosse sua atitude de chamar atenção do inimigo para os portões de Mordor, Frodo e Sam provavelmente sucumbiriam às hordas dos orcs que haviam fugido para a terra parda.

O Senhor dos Anéis – uma história ritmada sentido à sua conclusão

A trilogia O Senhor dos Anéis, como uma orquestra, seguiu o tempo natural da história e o manteve até a sua conclusão. Algo digno de aplausos para seu diretor que conseguiu manter a linha de acontecimentos em sua medida certa, contrabalanceando artisticamente os pontos de ação com os pontos de explicação, digamos assim.

Já escrevi sobre O Senhor dos Anéis em outra postagem, caso queira conferir, basta clicar aqui

Chamo atenção para esse detalhe devido algumas impressões negativas que ocorreram com longas séries, seja de livro ou televisivas, por exemplo, J.K. Rowling conquistou o mundo com Harry Potter, o planeta inteiro aguardou ansiosamente o desfecho da trama belamente criada pela autora.

Os livros do Harry Potter seguiam um tempo de acontecimentos, algo que tornava a história mais fluídica e emocionante. Claro que isso é algo extremamente bem trabalhado nos primeiros livros, contudo, provavelmente devido à pressão e as expectativas globais sobre o desfecho do jovem bruxo, J.K. Rowling chegou ao último livro querendo usar um feitiço de desaparecimento em si própria.

Você não concorda? Veja os indícios. Provavelmente leu todos os livros e, acabou se encantando com cada um deles. Certo? Apesar de ser uma série, independente dos próximos números, cada livro continha seu início, meio e fim. Isso é algo importante, pois torna cada livro único e empolgante. E isso é algo que acompanhou a série de J.K. Rowling até o sétimo livro, onde aconteceu um corte tão grande que até mesmo o mais desatencioso dos leitores perceberam.

Sou escritor e já fiz algo semelhante ao que a autora de Harry Potter fez. Isso aconteceu no começo de minha carreira. Estava escrevendo um conto e estava ficando longo demais e estava com receio que acabasse se tornando um romance. E para evitar escrever algumas páginas a mais, recorri a um subterfúgio cômodo. No conto, o personagem que estava ouvindo a história pediu para o outro que estava contando que terminasse de uma vez, caso contrário, morreria sem saber o que iria acontecer.

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Depois disso, escrevi mais duas páginas e finalmente “fim”. No último livro da saga de Harry Potter, as coisas foram acontecendo sucessivamente, ou seja, seguindo um andamento peculiar de livros cativantes mas, nas últimas páginas de “Harry Potter e as Relíquias da Morte”, J.K. Rowling do nada termina a batalha de Voldemort com Harry Potter e logo depois, em algumas páginas, conta quem ficou com quem de maneira rápida, sucinta e fim, ou seja, foram anos e anos para a saga acabar simplesmente de um momento para outro.

Com Game of Thrones está acontecendo a mesma coisa. Estamos chegando nos capítulos finais da temporada final e, comparando com as demais temporadas, esta está sendo a mais curta. Tudo bem que os episódios são mais longos, mas, se juntar todos, mesmo assim, mal chega a nove episódios. As demais temporadas tinham bem mais episódios.

Caso queira ler mais a respeito de Game of Thrones, clique aqui.

Enfim, a corrida de cadeiras em volta do trono de ferro, está chegando ao fim. Em breve conheceremos a conclusão de uma série que aprendemos a amar, que aprendemos a acompanhar e a esperar as novas temporadas chegar. Uma temporada que fomos acompanhando dentro de seu tempo de ação, uma série que foi crescendo e crescendo, tornando-se um sucesso global.

E que, agora, pode se tornar uma das séries com o pior final possível. Sei que a série não acabou, mas deixar para fazer todas as amarras e conclusões em um único episódio, seria a mesma coisa que comer a cobertura de um bolo e jogar o resto fora. Mas, tudo que podemos fazer é esperar para ver e torcer para que o final nos surpreenda de alguma maneira, já que parece que estão correndo para finalizar de uma vez por todas as crônicas de gelo e fogo.

E, felizmente, O Senhor dos Anéis de Peter Jackson segue uma harmonia de fatos sem a necessidade de retalhar detalhes que deixam a próxima cena sem sentido. Como disse, o trabalho realizado pelo diretor, segue um timing de acontecimentos que permanecem lineares até os últimos takes, transformando os filmes em algo indispensável para qualquer fã de cinema ou dos livros de Tolkien.

E falando em Tolkien, aguardem…