Os poderes de uma paixão nacional

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Alguns dias atrás o país passou por uma de suas maiores crises. (ou seria melhor: provações?) Os caminhoneiros decidiram lutar por melhores condições levando o país inteiro a beira de um verdadeiro colapso. No início da paralisação, apenas uma leve escassez, mas com o decorrer do protesto as coisas começaram a faltar e o povo passou a ficar realmente preocupados com a situação. Acredito que, até este momento, o povo apoiava a classe e suas reivindicações, agora, quando surgiram as filas; quando começaram a faltar produtos; quando São Paulo começou a parar por falta de combustível, desde momento em diante, o povo achou que os caminhoneiros não estavam pensando no restante da população.
O fato tornou-se notícia no mundo inteiro. Não demorou muito tempo e todos os tablóides do planeta noticiavam a crise que assolava um dos maiores e melhores países do mundo. Era para ser um país perfeito, caso não tivéssemos vermes que devorassem tudo de bom que temos de dentro para fora. Para uma melhor compreensão, uma analogia: vamos imaginar que o Brasil é uma maçã e que nossos políticos são como vermes que devoram a fruta de dentro para fora.
Mas, neste momento, tudo isso caiu no esquecimento. Ninguém lembra da greve dos caminhoneiros, do preço do combustível, dos vermes que devoram nossa maçã de dentro para fora. Nós, brasileiros e brasileiras festejamos um dos grandes eventos que acontecem de quatro em quatro anos: a copa do mundo. O momento de torcer para nossa seleção brasileira milionária de desportistas de futebol que vivem mais lá fora do que aqui.
Temos a pior politica mundial? Provavelmente. Nossos índices de educação estão entre os mais baixos? Infelizmente. O nível de alfabetismo do país é disfarçado pelo projeto escolar “frequente e passe”? Terrivelmente. Nossa própria saúde está em coma em algum banco de hospital esperando ser atendido? Notoriamente. Mas, felizmente, somos Penta e estamos torcendo pelo Hexa, a única seleção mundial que detém esse título. Isso provavelmente cura todas as nossas faltas, alegram nossas mazelas e fazem todo caos valer a pena.
Agora todos nós amamos ser brasileiros, cantamos o hino nacional que, por ventura, havíamos esquecido grande parte da letra. Mas, durante os jogos, lembramos que ele existe, lembramos de nossa bandeira e das cores do país enfeitando as ruas. Agora somos brasileiros com orgulho e aqueles brasileiros orgulhosos que moram no exterior, colocam camisas da seleção e pintam seus rostos com as cores da bandeira. Provavelmente na cabeça da maioria passa aquela velha cantoria: “Sou brasileiro, com muito orgulho…” Infelizmente, brasileiros com muito orgulho só em momentos como este.
O mais interessante é que vivemos imitando as coisas que vem de fora de nosso país. Algumas belas canções são versões de sucessos americanos. Nos filmes que assistimos vira e mexe vemos uma bandeira americana tremulando nas casas comuns de moradores. Não é copa do mundo para exibirem seu orgulho pela seleção… Acho que eles não precisam de uma razão para serem americanos com orgulho. Nos Estados Unidos eles não amam seu país de quatro em quatro anos. Nos Estados Unidos, quando acontecem alguma catástrofe, o país inteiro envia ajuda para os desafortunados. São desafortunados? Podem até ser, mas não desamparados.
Já no Brasil, quando acontece uma situação delicada que comove a população, as pessoas simplesmente assistem quietos em sua casas. Não mandam ajuda, apenas acenam quando percebem que estão sendo filmados em um momento tão desgraçado que acaba entrando para a história. Como, por exemplo, o prédio que desabou no centro de São Paulo alguns dias atrás… Ajudando mesmo aquele povo, somente os bombeiros e alguns assistentes sociais que transitavam entre as pessoas que perderam suas casas.Estavam anotando nomes para possíveis casas destinadas pelo governo e, provavelmente fazendo isso apenas para marcar presença, para ninguém dizer que o governo ou prefeitura do estado estavam de braços cruzados. Quanto à população, ajudou apenas observando a desgraça alheia, vendo nos olhos dos ex-moradores a falta de esperança, o não saber para onde ir. Estar vivo é um consolo? Sim, claro que é… Mas quando a razão chega a nossa mente e começamos a pensar onde dormiremos com nossas famílias que estão passando frio, fome e tudo mais… Estar vivo deixa de ser uma dádiva para ser uma desgraça, infelizmente esse é o sentimento que o desamparo nos traz em situações desesperadoras.

Quando os caminhoneiros começaram a exigir mudanças para uma melhoria de trabalho, grande parte da população abraçou a iniciativa. Alguns grupos oportunistas foram se infiltrando e transformando o movimento em células o que começou a dificultar as negociações e mostrar a desorganização e despreparo. Por isso, a população voltou para seu lugar e passou a criticar essa classe de trabalhadores que, poderiam inflamar no país inteiro, a necessidade de pararmos para mostrar nossa indignação e quem sabe, mudar alguma coisa.
Mas, como sempre, esses fatos caíram no esquecimento, mais uma nova página da história do país que foi virada, até mesmo esquecida, vai saber… Tudo bem, isso já não importa, agora o assunto de todos os noticiários é: Copa do mundo. Um evento que acontece de quatro em quatro anos, que traz as telas de todas as televisões no mundo, um evento caro, com jogadores que ganham verdadeiras fortunas, com uma liga por trás que ganha outra fortuna.
Enquanto isso, nós, simples telespectadores ficamos aqui, assistindo aos jogos, cruzando os resultados, torcendo pela vitória de nosso país. Que eles tragam a taça para casa! Que conquistem o Hexa! Isso não mudará nosso posicionamento no ranking de países com deficits alarmantes na educação, muito menos na saúde e muito menos ainda no quesito, honestidade política, mas, tudo bem, somos o primeiro na lista das grandes seleções, somos Hexa e isso deve valer alguma coisa. Assim espero.

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