Pimenta no dos outros é refresco

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Assim que lascou seu dedão no pé da cama, o delegado da cidade soube que aquele não seria seu dia. Ele chegou a cogitar em voltar para a cama, mas só podia mesmo sonhar. Decidiu enfrentar o destino de frente, afinal de contas, superstição é um afrodescendente muito grande não é mesmo. Ele sabia que aquele dia prometia.

Ao entrar no banheiro, constatou que não havia água, lavou as axilas e o rosto para evitar mal cheiros muito próximos aos narizes alheios e passou uma overdose de perfume para disfarçar qualquer possível incidente. Desceu para tomar café, na mesa já estavam os dois filhos adolescentes discutindo como sempre e sua esposa encostada no fogão com os bobs no cabelo apenas olhando para o nada.

Ele sentou-se, a discussão continuava, ele parecia invisível, a mulher ainda olhava para o nada, como se estivesse possuída por alguma assombração tediosa. Era algo irônico, em sua própria casa, o delegado não conseguia colocar ordem, chegou a tentar dizer alguma coisa mas, acabou desistindo e foi para o seu trabalho, onde suas palavras eram acatadas no primeiro olhar.

– Delegado? – Um dos policiais chegou arrastando um garoto algemado de cabeça baixa, como todos costumam ficar diante de uma situação assim. – Esse meliante foi flagrado assediando uma garota na porta da escola.

– Relate os fatos. – Ordenou o delegado ciente de seu poder.

– Olha, doutor. – Começou o meliante mais parecendo um graveto prestes a ser quebrado. – Eu não pude resistir… O vento bateu na saía da garota que acabou subindo ai… Sabe como é… Acabei mexendo e ela começou a gritar: tarado! Tarado! E por isso acabei parando aqui.

– E o que você estava fazendo na escola? – Perguntou o delegado. – Não tem cara de aluno que estuda de manhã?

– Fui levar meu irmão de dezessete anos na escola.

– Dezessete anos? Não é uma escola primária?

– Não senhor. – Respondeu o meliante.

– Então a garota era mais velha? – O meliante assentiu. – Libera o rapaz. Ele não fez nada de mal, olhar não arranca pedaço e ouvir um elogio levanta a moral de qualquer uma.

O outro policial soltou o meliante das algemas e depois de agradecer e se desculpar, prometeu nunca mais mexer com nenhuma garota enquanto tivesse vida. As horas foram passando e logo depois do almoço outro delinquente entrou pelas portas da delegacia.

– Delegado? – O delegado olhou para o policial que prontamente começou a relatar. – Esse rapaz foi pego com a boca na botija… Estava em uma festa de Funk e acabou não resistindo, pegou uma garota e a forçou a fazer sexo com ela.

– Você disse em uma festa funk? – Indagou o delegado ao delinquente. – E como foi isso?

– É doutor… Eu estava lá e de repente aquela moça ficou rebolando daquele jeito sabe… – Começou a explicar. – Ela já havia dado umas olhadas pra mim e pensei que ela estava a fim… E quando ela me olhou e foi para um canto, levantei a saia dela e…

– E ela não mandou você parar? – Perguntou o delegado. – Ela não lutou ou mandou você parar?

– Não, doutor. Ela me empurrou mas estava rindo… Achei que era alguma fantasia… Sabe como é…

– Já tem passagem na delegacia? – O delinquente meneou a cabeça negativamente, era virgem. O delegado pediu os dados e o fichou. – Bom, agora além de fichado, você ficará um ano recluso, você tem direito a uma ligação para avisar aos seus pais sobre sua inflação… Não é só por que uma menina dança quase nua cantando letras como “hoje não vou dar, vou distribuir” que você pode ir chegando assim… Um ano de cadeia e cela compartilha com o Geraldão. Leva ele.

Depois de algumas horas, o mesmo policial chegou com mais dois infratores, de praxe, ambos estavam de cabeça baixa. Era um dia movimentado e, pela cara daqueles dois, o delegado já podia adivinhar.

– E agora?

– Esses dois foram flagrados estuprando uma garota, senhor.

– Hummmm….

– Hum não senhor, os dois.

– Eu sei… E como foi isso? Ela permitiu tal coisa?

– Não senhor. Ela estava gritando, uma vizinha ouviu e ligou para a delegacia.

– Isso tá entrando na moda… Depois das compras coletivas, agora estupro coletivo… Como foi isso?

– Bom, senhor eu não vi direito, mas…

– Perguntei para os dois… Quem começou a palhaçada?

– Então, doutor. A garota meio que queria comigo, mas ela já tinha sacaneado meu camarada aqui por que ela não quis sair com ele, disse não pra ele. Então, como ela arrastava uma asa pra mim…

– Já saquei, você fez dela um Facebook, adicionou e compartilhou com seu truta… – O delegado olhou para os dos infratores, pegou seus nomes e continuou. – Quatro anos de cadeia, dois para cada um. Pode levar esses desgraçados daqui e não esqueça de dar um toque para os companheiros de cela.

– Senhor? – Disse o policial. – Dois anos para cada um, mas… A garota é de família direita, acha que dois anos para cada é o suficiente para fazer justiça? Dois anos queimando a rosca já está de bom tamanho… Quem é o delegado aqui, eu ou você?

– O senhor…

– Então pode leva-los.

Depois de alguns roubos menores, batidas de trânsito, quase no final do expediente, eis que entra novamente o mesmo policial, desta vez com quatro caras algemados. O delegado que estava preparando-se para ir embora.

– E agora?

– Mais um caso de abuso sexual, senhor e desta vez…

– Desta vez foram quatro! – Interrompeu o delegado visivelmente apático. – Passagem?

– Todos fichados. – respondeu o policial, prontamente.

– Quatro anos de cadeia para cada um. – ele olha para o relógio.

– Aviso o pessoal?

– Faz o que achar melhor… E quanto as vítimas?

– Estão sem condições de prestar depoimento no momento, senhor.

– É sempre assim. Bom, meu expediente acabou. Até amanhã.

O delegado voltou para casa, ao chegar, só encontrou sua esposa e filho, a filha não havia chegado, como ela havia mencionado que estudaria com uma amiga, os pais não se preocuparam. O filho subiu para o quarto jogar um pouco de videogame e os pais ficaram assistindo à novela do horário nobre, quando de repente foi interrompida pelo noticiário.

– Mais uma garotada é vítima de um estupro coletivo. No dia do beijo, em um parque da cidade, ela que beijou um rapaz, acabou sofrendo agressão pelos amigos que acompanhavam o rapaz que havia gostado, ela não sabia que tudo já estava combinado entre eles.

– Isso é um absurdo. – Comentou a mulher do delegado.

– Absurdo são os pais dessa menina permitirem algo assim. – Respondeu ele, friamente. – É como aquela outra que acabou se oferecendo para um e tantos outros acabaram chegando junto. Elas que procuraram.

– Não é a questão de procurar ou não, mas sim o que isso significa… Essas pessoas acabam achando que algo assim é normal. Que só pelo fato da garota usar um short menor está pedindo para ser estuprada…

– Mulher, eu sei o que estou falando… Hoje na delegacia parece que abriram a porta do puteiro… Muitos casos de estupro e todos, se for averiguar friamente, veremos que as vítimas acabaram dando mole. Onde já se viu uma moça de família dançando nas madrugadas nesses bailes… Essa moça do parque, no nosso tempo não tinha esse negócio de ficar com um e com outro… Hoje em dia tudo está tão solto que acaba dando nisso.

– Sinceramente? Se a lei fosse mais severa com esse tipo de crime com certeza reduziria o número de casos… Onde já se viu, um homem agarrar uma mulher já é um absurdo, imagine uma dúzia ou até mais… E agora estão com esse negócio de pena dependendo da quantidade de pessoas… Onde já se viu…

– Mulher, você não sabe o que está dizendo…

De repente a filha do delegado entre em casa aos prantos. Sua mãe toda preocupada já levanta com os olhos cheios de lágrimas, a menina chora ainda mais.

– O que aconteceu? – Perguntou o pai, preocupado.

– Pai… – começa a garota. – Estava estudando na casa de um amigo com mais outra amiga, até aí estava tudo bem, mas quando minha amiga foi embora… – ela estava aos prantos. – esse meu amigo começou a vir com umas conversas e acabou me agarrando…

– Por que não saiu correndo do quarto?

– Eu tentei, mas a porta estava trancada. Não percebi o que ele havia feito, pai.

– Como chama esse infeliz e qual o endereço? – Assim que a filha passou os dados, o delegado ligou para o policial mais próximo. – Venha aqui na minha casa agora. – O outro policial fala algo do outro lado – O que aconteceu? Um cara abusou da minha filha… (Silêncio) Hein? Claro que não deve ter passagem, deve ser um desses adolescentes punheteiros… Já está vindo? (Silêncio) Ótimo, traz alguma coisa fria. (silêncio) Pra quê? Como assim pra que, filho de Deus! O cara abusou da minha filha e você acha que vou deixar esse infeliz andando sobre a terra? (Silêncio) Que mané Geraldão e um ano de cadeia… Esse mexeu com quem não devia e vai comer capim com areia.


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