Pra ser sincero, como não se pode ser

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Dias atrás foi compartilhado um texto atribuído ao padre Fábio de Melo, no qual discursava a respeito da pandemia e o isolamento social. Como esperado, o texto foi compartilhado deveras vezes pelas redes sociais e chegou ao conhecimento de sua assessoria de imprensa, que negou à autoria. Depois da constatação, o texto deixou de ser compartilhado e acabou sendo condenado ao limbo do esquecimento.

Outras celebridades já passaram por isso, como por exemplo: Arnaldo Jabor, que chegou a escrever uma crônica a respeito de uma senhora que, ao encontrá-lo na rua, o criticou pelo que havia escrito. Detalhe: o texto não era dele, se apropriaram de seu nome, mas como provar algo assim para alguém? Recentemente, o cronista foi alvo de mais um “atentado cultural”, desta vez seu texto defendia o posicionamento do atual Presidente da República. Claro que, assim que soube, Arnaldo desmentiu a autoria.

Apesar de ser uma prática condenável, esses “criadores de notícias falsas” merecem reconhecimento profissional. Os textos divulgados realmente parecem ter sido escritos pelos seus alvos. Escrever com a qualidade de um Jabor ou de um padre, não é para qualquer um. Exige muito estudo, leitura e uma sensibilidade literária para absorver o estilo de escrita. Com o tempo, quem escreve desenvolve uma identidade lexical, algo próprio, único, intransferível, entretanto, como a situação nos mostra, até mesmo a intelectualidade pode ser vítima da pirataria. Portanto, podemos afirmar que as falsificações não se limitam apenas ao material, como também ao intelectual.

Mas não estou aqui para falar a respeito de Fake News, algo que, para mim, sempre esteve entre nós, desde o momento em que o homem passou a viver em sociedade. Fake News é o termo associado a toda e qualquer notícia ficcional criada justamente para confundir ou distanciar da verdade.

Eis um dos grandes problemas da sociedade atual, que acabou ganhando forças com os avanços da internet e das comunicações. Hoje, as informações se espalham pelo mundo em questão de minutos e, por essa razão, qualquer texto compartilhado pode alcançar proporções globais e, ainda, trazer problemas para seu autor. Como disse acima, Arnaldo Jabor passou por uma consequência constrangedora por conta de um texto que não escrevera. Tal fato comprova não somente a força de um nome, mas a relevância e sua importância para a sociedade.

Quando vemos Arnaldo Jabor falando na televisão, ou nos deparamos com um de seus textos no jornal, paramos e prestamos atenção, afinal, conhecemos seu trabalho, gostamos de seu tom humorístico, ao mesmo tempo, sarcástico. De sua forma de criticar e se posicionar diante dos acontecimentos. Com padre Fábio não poderia ser diferente. Além de chamar atenção por sua beleza, ainda é provido de uma oratória cativante e envolvente. E para algumas pessoas é tudo que basta para aceitarem como verdade incontestável.

Todos os dias somos bombardeados com milhares de informações. Precisamos obter o costume de pesquisarmos a respeito da veracidade de tais informações, caso contrário, os resultados podem ser fatais.

Como aconteceu nos Estados Unidos. Algumas pessoas foram hospitalizadas e outras faleceram devido ao envenenamento causado por produtos de limpeza. Como foi possível? O presidente Trump inquiriu a respeito da possibilidade de imunizarmo-nos do coronavírus ingerindo determinadas soluções destinadas para a higienização residencial. Infelizmente, isso não é uma fake news, o presidente realmente cogitou essa possibilidade e americanos que acreditavam em suas palavras, decidiram seguir o conselho de seu líder.

Não sei onde as pessoas estavam com a cabeça para acatarem tamanho absurdo. Talvez motivadas pelo medo, ansiedade ou até mesmo tenham pensado a respeito dessa solução e só aguardavam alguém inteligente, estudado e bem posicionado na vida para validar tamanha possibilidade. Os líderes não são chamados de líderes apenas pelo cargo que ocupam, mas também pelo direcionamento e esperança por dias melhores que juraram buscar durante seu mandato. Infelizmente, nem todo homem que pensa ser bom líder realmente é um bom líder, afinal de contas, falar sempre é muito mais fácil.

Tão fácil quanto espalhar uma notícia falsa, que só deixa de ser verdadeira quando chega à pessoa que supostamente assinou determinado texto. Até ser desmentida, milhares e milhares de olhos devoraram tais palavras, e depois, regurgitam-nas em suas redes. Quem escreveu aquilo foi o Beltrano da Silva Sauro, a maioria talvez nem conheça seus trabalhos, mas foi o Beltrano! Compartilhar ou comentar algum tweet vai ser bacana… Quem sabe não comenta minha postagem… Vai saber que existo e que o sigo, quer dizer, não seguir todo tempo, mas estou lá como seguidor… Ele sabe que estou lá, com certeza já viu minha foto!

Determinados compartilhamentos ocorrem não pelo seu conteúdo, mas por quem assinou aquele texto. Quando um mortal “tweeta” ou posta algo genial, os comentários e curtições são os menores possíveis, chegando a ser desencorajador. Em contrapartida, aquele artista que fez uma ponta em alguma novela, filme, série ou qualquer outra coisa que envolva o mundo mítico das artes, posta algo em suas redes sociais — mesmo que seja: “Gente, dei um espirro daqueles… Foi tão forte e inesperado que acho que me borrei…”. Por se tratar de um artista, é compartilhado, comentado e curtido, diversas, milhares e assim por diante.

Enquanto um é supervalorizado, o outro é superdesvalorizado, indicando que inteligência não é tudo, que status define com mais precisão o que atualmente é compartilhado, sem ao menos consultar se aquilo é verdadeiro ou falso. Por isso, podemos dizer: o que nos impulsiona a ler um texto não é o assunto contido, mas sim o nome que se lê como autoria.

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