Pura Contradição – Humberto Lima

Compartilhe agora mesmo

Eu ando por uma São Paulo que é pura contradição.
Sabemos que o Corona Vírus é um assassino silencioso, que pode nos atingir a qualquer momento. Talvez já tenha até atigido e não morremos. ]
Matamos.
Medo. Ódio. Paranóia.
Olhos febris que se entreolham como feras prontas para atacar.  A tensão é palpável, quase visível. Todos são suspeitos. Todos inimigos.
Se a pessoa está sem máscara: Merece morrer!
Se saiu na rua: Merece morrer!
Eu ando por uma São Paulo que é pura contradição.
Quando você sai na rua, sente-se acuado, não saiu por que quis… A necessidade o impeliu. Os outros não. Saíram por que quiseram.
A doença expôs o pior que pode existir nos seres humanos. Se você fica em casa é trouxa, se sai é salafrário.
Ninguém confia em mais ninguém. Parentes nos traíram, trazendo a doença em suas saídas a rua. Políticos nos traíram, com suas mentiras.
A fé nos traiu.
As ruas de todo o Brasil, lotadas de gente sem máscara, por que o disseram que está tudo bem. Que agora todos estão seguros. Alguns poucos dias para se manifestar.
Depois de duas semanas, contaremos nossos mortos.
Eu ando por uma São Paulo que é pura contradição.
Todos estamos a um passo da morte, apenas isso é concreto.

(Texto desenvolvido para o desafio de prosa poética da Revista Villa das Palavras – seu comentário é muito importante)


Compartilhe agora mesmo

5 comentários em “Pura Contradição – Humberto Lima”

  1. De fato, a COVID-19 tem extraído o melhor e o pior das pessoas, evidenciando toda a humanidade que há em nós.
    A crônica tratou do tema do ponto de vista das ruas de São Paulo, com bastante coesão, domínio e objetividade.
    Show! Parabéns!!!

    Responder
  2. São Paulo é pura contradição sendo repetido no texto algumas vezes, traz a ideia de poética, como se fosse um refrão, porém, levando em consideração o sentimento do texto, seria melhor usar a palavra: grito. Outra detalhe que achei interessante foi a finalização, a palavra “concreto” sendo utilizado em um texto que “subjetivamente” fala de nossa selva de pedra, coloca a realidade que vivemos em um tom fantasioso e a morte, como algo palpável. Curti o texto

    Responder

Deixe um comentário