Quando era adolescente, há muitos anos atrás, ouvi de muitas empresas: você não tem experiência suficiente para trabalhar conosco. Não era suficiente, era nenhuma, estava querendo ingressar no mercado de trabalho, mas nenhuma empresa se quer dava oportunidade de mostrar que estávamos ali pedindo emprego para trabalhar como gente grande, digo isso por que acho que as empresas de ontem e até mesmo algumas de hoje, acham que estamos procurando emprego para nos divertir.

Enfim, depois de muita luta e muita procura, finalmente apareceu uma empresa que decidiu me dar uma oportunidade e lá obtive a responsabilidade necessária e também o profissionalismo que trago até hoje em tudo que faço. Claro que não fiquei lá por muito tempo, queria trabalhar em outro ramo de atividade e, confesso que não sou apaixonado por números, ainda mais por um escritório de contabilidade, mas, foi lá que aprendi a trabalhar como gente grande.

Sempre fui apaixonado por artes e, talvez tenha sido essa a razão de ter começado a procurar outra área de atuação. Acabei me tornando designer gráfico e descobri que, quando trabalhamos com aquilo que gostamos, trabalhamos ainda melhor. Nunca me importei com meu horário de saída, para mim, era um grande prazer desenvolver artes que veria espalhado pelo país inteiro.

Aos 24 anos, lá estava eu trabalhando em uma house da Warner. Todos os materiais da empresa passavam por nossa agência. Quando ia em algum cinema, lá estava um pôster que havia trabalhado e isso me enchia de orgulho. Até mesmo quando ia nas locadoras (quando existiam) ficava feliz por ver um material que desenvolvera. E eu olhava atentamente, observando se não havia passado nenhum erro. Foi uma fase muito importante de minha vida, durou cerca de quase vinte anos, pelo menos até a agência decidir fechar as portas.

E lá estava eu de volta procurando emprego, mas agora, as empresas não diziam que tinha pouca experiência, agora diziam que tinha muita experiência e que não poderiam cobrir meu salário. E, entre nós, não queria cobrir nenhum salário, queria trabalhar, voltar ao ramo e ganhar meu dinheiro honestamente, mas, para um profissional na casa dos quarenta achar outro trabalho… São dois extremos, quando era jovem, tinha que ter experiência, depois de velho, tinha experiência demais, uma outra maneira de dizer: cara, você está muito velho, tem jovens por aí que trabalham pela metade que teria que te pagar…

Enfim, com família para sustentar, você acaba procurando outras alternativas para levar o pão nosso de cada dia para sua casa e, depois de trabalhar como jornalista freelancer, roteirista, acabei partindo para trabalhar na Uber. Claro que no começo, fiquei cheio de receio, afinal de contas, eu conhecia muitos taxistas e já havia ouvido histórias terríveis, mas, a necessidade falou mais alto e com fé em Deus, segui para as ruas, tentar uma nova profissão que minha idade não atrapalhasse.

Já faz um mês e pouco que comecei a rodar por toda cidade. Tenho levado pessoas de todos os jeitos para seus destinos, algumas sentam ao meu lado e conversam, outras, sentam no banco de trás e voltam seus olhos para seus celulares, sinal de uma corrida silenciosa com o mínimo de palavras possíveis, mas, tudo bem, ossos do oficio e, como motorista, tento fazer o que me propus a fazer da melhor maneira possível, mesmo achando que cada buraco que pego, pode reduzir minha avaliação.

Confesso que às vezes me sinto inferiorizado pela profissão escolhida, algumas pessoas entram e nos faz parecer um nada, mas até ai, fazer o que… Nunca pensei que faria algo assim para ganhar a vida, mas é o que pode me garantir um salário melhor onde consiga pagar todas minhas contas e ainda sobrar um dinheirinho para fazer alguma coisa. Dou graças por ter essa oportunidade, mesmo tendo sofrido um assalto neste mesmo dia, foi um momento difícil, mas, ossos do oficio. Levaram meu celular e todo dinheiro que ganhei no dia, mas pelo menos fiquei com minha vida, documentos, carro e a certeza que teria que continuar no dia seguinte para correr atrás do prejuízo.

Triste não? Mas, faz parte, todos nós que trabalhamos desta maneira estamos correndo risco de perder não somente os bens que temos, mas as nossas vidas. Mas, fazer o que, precisamos trabalhar dignamente já que nenhuma empresa contrata funcionários com uma determinada idade. Para algumas pessoas, trabalhar de Uber tem sido uma salvação, uma ótima forma de ganharmos algo de forma digna, nos sentindo uteis para nossas famílias de alguma maneira.

Mas, sofremos tentando agradar o passageiro de todas as maneiras, alguns, só faltam colocar no carro com os braços. E para que? Para mantermos a qualidade dos serviços, para sermos bem pontuados para mostrar para os próximos passageiros que somos profissionais que tentamos prestar um serviço de qualidade. Eu gostaria de ganhar meu dinheiro de outra forma? Sim, gostaria, mas, infelizmente, cometi erros irresponsáveis referente a estudo em meu passado, que carrego até hoje.

E antes que alguém me julgue, sou formado, jornalista nas horas vagas por paixão, escritor nas horas vagas por necessidade. Isso sem mencionar que lancei dois cds que se tornaram um grande sucesso mundial. E antes que alguém pense que me tornei uma pessoa rica em termos de dinheiro, saiba que me tornei rico apenas por experiência e aprendizado, quanto ao dinheiro… Não ganhei muita coisa, mas meu nome está escrito no mundo da música de alguma forma e nunca será apagado, isso é um fato!

E por que estou escrevendo esse texto? Por causa de uma tal de Juliana Takeda Paiva que postou em suas redes sociais algumas afrontas sobre as pessoas que trabalham de Uber, as chamando de fracassados e ainda, conclamando as pessoas para nos dar uma estrela para voltarmos para o buraco que viemos. Isso é algo triste de se ler de uma pessoa que parece ter o mínimo de instrução, já que coração, não parece ter absolutamente muita coisa.

Mas, Juliana, não somos fracassados, somos pessoas trabalhadoras que não conseguem arrumar um trabalho nas respectivas profissões. Infelizmente, não nascemos em berço de ouro, temos família e preferimos levar você e mais uma série de pessoas ao invés de sair por aí fazendo o que fizeram comigo hoje. Não queremos o dinheiro que você leva na bolsa ou seu celular, queremos o dinheiro para leva-la de um lugar para o outro, com o conforto que podemos dar, com um cumprimento sincero.

Agradecendo a corrida quando chegamos ao final. Sabemos que não foi você que nos escolheu, foi o aplicativo que nos uniu em um momento que pode durar alguns ou muitos minutos. Não me julgo uma pessoa frustrada e, cada novo passageiro que pego no meu simples Uno Way, recepciono com um sorriso, ofereço balas, pergunto sobre o ar, falo dos cintos de segurança e tudo mais o que manda o figurino. E tudo isso para que?

Para uma melhor comodidade, para uma melhor experiência. Quando ofereço realizar um trabalho, sei da importância que tem e me sinto orgulhoso por desempenhar um bom papel. Sei que às vezes erro, mas sempre me desculpo, até mesmo quando pego um buraco em uma via que não tem como fugir. Veja que absurdo, pedir desculpas por algo que nem culpa minha é… Como disse, não sou frustrado, mas me frustro quando pego um passageiro que mal me cumprimenta.

Particularmente, não sei como foram suas experiências com meus parceiros de trabalho, mas da mesma forma que existem passageiros como você, existem outros como o rapaz que foi assaltado comigo hoje, não me xingou, não me culpou, olhou na minha cara e disse: pelo menos não levou as nossas vidas. Essa é uma grande verdade da profissão de motorista de aplicativo e também de usuários de aplicativos, existem pessoas que não descontam seus problemas sobre as costas dos motoristas e motoristas que respeitam o passageiro na mesma medida, afinal de contas, todos nós estamos trabalhando honestamente de alguma maneira. (Adriano Villa)