Caro Zeca,

Primeiramente quero justificar a demora nesta resposta, mas algumas coisas só caem em nossas mãos quando estamos prontos para saber aproveitar o melhor. Confesso que sempre dediquei um olhar carinhoso para seu trabalho, sua letra no Parceria dos Viajantes do Zé é fantástica, mas, nunca comprei nenhum cd, sorry.

Da mesma forma que nunca comprei seu cd, nunca pensei em responder uma crônica, mas a sua… Não existe uma razão clara e muito menos alguma intenção nas entrelinhas, apenas achei o texto interessante, honesto e verdadeiro, com tantas mazelas por aqui, por que as pessoas esticam seus pescoços para olhar do outro lado do mar?

Sei que faz tempo que abordou o assunto, mas, infelizmente, ele ainda está em pauta nos dias de hoje. Não algo declarado e necessário, mas basta surgir uma oportunidade que todos acendem suas velas e se condoem com a dor alheia, chegando a esquecer de suas próprias chagas. Enfim, acho que isso faz parte da cultura de nossa nação.

Quando lia atenciosamente seu texto, me veio algo à cabeça, uma iluminação, uma resposta aos seus questionamentos. Talvez as pessoas se condoam tanto pelas outras pela simples necessidade de esquecer um pouco suas próprias dores incuráveis. Tanto é que muitas pessoas utilizam as dores do próximo para acalmar suas próprias frustrações.

Outra possibilidade também é que, apesar de sermos tão abertos e calorosos, ainda temos uma certa dificuldade em estender nossas mãos para quem realmente podemos estender. Por exemplo, se em algum país distante, muito distante, acontece algo que se espalha pelo mundo, somos os primeiros a querer ajudar de alguma maneira… Mas a distância nos impede ou simplesmente nos justifica de alguma maneira.

Entretanto, quando temos um problema realmente ao alcance de nossas possibilidades, simplesmente hesitamos e pensamos milhares e milhares de vezes antes de fazermos alguma coisa, pensamos tanto que até mesmo o problema acaba se distanciando e nos sentimos aliviados por outro alguém ter ajudado de alguma maneira enquanto decidíamos ajudar ou não.

Apesar da fama que o povo brasileiro tem de ser um povo caloroso e tudo mais, são pouquíssimas pessoas que realmente estendem a mão para ajudar ou fazer algo pelo próximo, mesmo levando em consideração que todos nós somos próximos de alguém também. Infelizmente, alguns brasileiros mal conseguem estender a língua para dizer algo para seu próximo que o faça sentir melhor de alguma maneira.

E olha que palavra não custa absolutamente nada e muito menos estender a mão para reerguer alguém, agora, quando é para criticar ou simplesmente derrubar alguém… Não costumamos perder tempo e, se não temos quem compartilhar tais comentários negativos, sempre procuramos alguém que possa nos ajudar a melhor ainda mais a nossa própria frustração.

Por isso, meu caro Zeca, acho que é mais fácil nos condoer por problemas bem longe de nós, acho que a distância nos exime de fazer algo verdadeiramente real. E por essa “falta de sorte”, ou “impossibilidade de ir” acabamos simplesmente nos unindo a uma corrente de pensamentos que só é realizada no primeiro instante, para depois ser completamente esquecida.

Quanto aos problemas dentro de nossas próprias fronteiras, infelizmente, muitas pessoas tem consciência que existem, mas poucas fazem realmente algo bom para seu próximo, quer dizer, até poderiam, mas algumas preferem passar por cima a realmente fazer algo de bom. Problemas por perto gera uma miopia em massa, um descaso disfarçado de outras necessidades particulares. Afinal de contas, é muito mais fácil enviar vibrações positivas para problemas fora de nossa alçada do que assumir a nossa imparcialidade diante de nossa própria realidade.