Sabe do que sinto saudade?

Sinto saudades de algumas coisas que remontam minha infância. Uma época que, como dizem, jamais voltará, tudo bem, algumas pessoas dizem que pareço uma criança em determinados momentos, mas, valorizo o riso, as brincadeiras e o bom-humor. Claro, tenho meus momentos de tempestade, mas elas sempre passam com um sol de esperança brilhando no horizonte… Alguns vão dizer que deslizei no croquete depois da última frase, mas tudo bem, o importante é gozar, não é mesmo?

Claro, não é aquele gozar que você imaginou, mas sim o gozar a vida, cada segundo para falar a verdade. Infelizmente, chegamos em um momento que, todos nós, sem exceção precisam agradecer por estarmos vivos em um mundo que cada vez mais parece uma selva. E pior que não é aquela selva que destruímos, onde animais matam para comer, os animais da nossa selva matam por matar, não precisa muito, um movimento para tirar a carteira e dar o pouco que tem já é o suficiente para arrancarem seu bem mais precioso.

Não lembro de coisas assim no meu tempo de criança… Claro, a violência não é novidade, não começou ontem, pelo contrário, ela começou há muito tempo atrás, segundo a Bíblia, no momento que Caim matou Abel… Mas, vamos focar na minha infância. Cresci na periferia da Zona Norte de São Paulo, mais conhecido como cú do Judas, falar de Vista Alegre algum tempo atrás fazia qualquer um se urinar todinho…

Pois é, engraçado lembrar disso… E olha que minha adolescência caminhei por diversos bairros que eram tidos como extremamente perigosos, mas graças a Deus, nunca me aconteceu nada de ruim, também, sempre soube entrar e sair dos lugares que me enfio. Se é por essa razão eu sinceramente não sei, mas se estou aqui sentado hoje em dia escrevendo isso… Agradeço a Deus, meu anjo da guarda e tudo mais que puder ser grato de alguma maneira.

Para você ter uma ideia de como eram as coisas no meu antigo e saudoso jardim Recanto, em uma determinada noite, não me recordo de quantos anos eu tinha, lembro apenas que morava em uma humilde residência de dois cômodos. Na rua debaixo houve um tiroteio, não era roubo, pelo contrário, era o justiceiro do bairro “apagando” algum meliante que se atreveu por ali. Uma dessas balas encontrou o rumo de minha casa e por sorte só danificou a janela do quarto e assustou minha mãe que viu sangue, mas não foi nada de grave, apenas os estilhaços do vidro que acertaram seu rosto.

No dia seguinte o justiceiro foi até em casa ver o estrago e provavelmente se prontificou a pagar, mas meus pais não aceitaram, ele ainda insistiu, mas estavam irredutíveis quanto a isso e por fim, o justiceiro acabou sentando a nossa mesa para comer uma conosco uma feijoada que minha mãe havia preparado. O justiceiro era amigo de todos e era bem-quisto pela maioria dos moradores, mas, mesmo sendo amigo, gente boa e etc, em uma feira no parque Tiete, acabou encontrando seu fim.

Não lembro o nome dele, se lembrasse, colocaria para homenageá-lo de alguma forma. Espero que não ache que estou sendo conivente com o crime, não sou! Só mencionei em nome da lembrança, como da época que costumava jogar bolinha de gude, peão, pata de vaca, perna de pau, arco e flecha (…) Sinto saudades, uma época que não tinha muitas responsabilidades, onde sonhava em erguer as mãos para o céu e gritar “as ordens” e virar o Spectreman, não queria ser o Ultraman, a força dele acabava muito rápido.

Mas o que sinto mais saudades daquele tempo é do Notícias Populares… Quem lembra desse jornal que muitos diziam que bastava torcer para sair sangue? Pois é… Estranho ter saudades de algo tão ruim, não é mesmo? Mas, como disse, a violência e marginalidade sempre fez parte de nosso mundo, poucos foram instruídos corretamente, outros acabaram recebendo tal vocação de berço, outros ainda acham que tal caminho é o mais fácil e etc… Enfim, sinto saudades deles pois tenho vergonha dos jornais de hoje em dia, se você torcer algum, não vai sair sangue, mas sim, falta de vergonha na cara de todos nós.

Hoje inventei de ler o Estado de São Paulo e a maioria das matérias eram: ora corrupção, ora aumento de não sei o que, ora fraude na saúde, fraude não sei onde e por aí vai, tudo crime de colarinho branco, de pessoas que estudaram aqui ou no exterior, aprenderam a passar a mão na bunda do trabalhador e ainda cantar de gatinho por aí… É deprimente torcer um jornal e ver a pouca vergonha de pessoas que foram elegidas pelo país, que traíram a confiança de cidadãos que sacrificaram seus domingos para votar.

Qual dos dois criminosos é pior? Particularmente sempre achei aquele que premedita… Nem sempre a intenção daquele que rouba é matar, ele sabe que está à margem, que não tem nada a perder pois já perdeu até as esperanças de algo melhor para si… um movimento brusco, uma luz vermelha piscando e pronto, deu em merda… Latrocínio… Agora, um político geralmente se candidata com um único objetivo: mamar nas tetas do gigante que acordou… quer dizer, ele só bocejou e voltou a dormir, infelizmente, essa é a verdade.

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