Hoje em dia os produtos próximos do vencimento acabam fazendo parte de promoções relâmpagos, tudo para que o prejuízo seja o menor possível. Mas nem sempre foi assim, lembro-me de certa vez no bairro que residia há muito tempo atrás, um caminhão repleto de danup’s desovando uma quantidade enorme. Naquele dia, houve uma comoção muito grande no Jardim Recanto, nas proximidades da Vila Nova Cachoeirinha.
 
Por morar um pouco longe do local e ser muito novo, não pude ir até lá para garantir alguns danones para mim e minha família, mesmo assim, acabei ganhando alguns das pessoas que passavam pela minha rua com carrinhos de mão ou sacolas repletas daquele produto. Para você ter uma ideia da visão que tinha:

Imagine uma imensa procissão de pessoas, agora coloque carrinhos de mão e sacolas abarrotadas de danones e para finalizar, suje as roupas com barro.

Pois é, aquele pessoal não teve dó de ninguém e jogou os produtos em um lugar de difícil acesso. Tudo bem que alguns defenderão que fizeram isso com tal intenção, mas particularmente não acho, ainda mais levando em consideração o rio que havia por ali, caso não quisessem que os produtos fossem pegos pela galera, era só jogar no rio, concorda? Como não fizeram, acho que queriam mesmo ver o pessoal escorregando e se matando para ter uma sobremesa decente em casa, algo que, muitos fariam sem qualquer dor na consciência.
 
Infelizmente as pessoas para se darem bem em determinadas situações fazem loucuras. Os meus antigos vizinhos deslizaram no barro por causa de alguns dan-ups quase vencidos. Outras pessoas se aproveitam de acidentes envolvendo caminhões e cargas que os interessam. Algo que acontece com determinada frequência.

Basta um caminhão de algo bacana virar suas rodas para cima e lá estará um imenso formigueiro de pessoas pegando e levando o que puderem. E olha que algumas nem precisam, mas…

Você deve conhecer o velho ditado: “dê a César o que é de César”, ou a expressão “cada um chora pelo buraco que sente saudade”, não é verdade? Pois bem, na semana passada aconteceu um desses acidentes para a alegria das pessoas que viviam nas proximidades… Todos correram para ver o que levariam gratuitamente para casa, provavelmente já imaginando aquele banquete fantástico, entretanto, quando chegaram ao local, notaram que se tratava de um caminhão que transportava livros…

E por incrível que pareça, voltaram para suas casas desapontados. 

Isso mostra o quanto nossa sociedade é carente de conhecimento, de interesse de cultura. Atualmente, uma pequena parte da população nutre, não somente o desejo, como também a necessidade de se dedicar a leitura. Para alguns, pode parecer algo completamente sem sentido, no entanto, caso não saiba, nosso cérebro é um músculo que precisa ser constantemente exercitado, caso contrário, atrofia como qualquer músculo que deixamos de trabalhar.

Falando nisso você sabia que, exercitar o cérebro pode até diminuir a possibilidade do mal de Alzheimer? 

Alimentamos o corpo e esquecemos de nos alimentar culturalmente. E quem é o culpado dessa falta de interesse? Segundo meu professor de História de antigamente, Ticão, a culpa é do governo que não quer eleitores capazes de raciocinar e que sejam fáceis de ludibriar. Particularmente, me sinto inclinado a concordar com meu antigo professor, afinal de contas, meu gosto pela leitura chegou depois que fugi pela primeira vez da escola. É mole?
 
É até vergonhoso assumir tal coisa, mas prova disso foi um trabalho que tive que fazer baseado em um livro. Como não gostava de ler, nem me importei com o tempo que urgia até o grande momento de entregar. Conclusão, acabei fazendo meu resumo baseado nas orelhas do livro. E não precisa ser nenhum gênio matemático para descobrir a nota que tirei.
 
Claro que isso ficou para trás e hoje tenho uma biblioteca digna de orgulho, tanto histórias contemporâneas quanto as clássicas que me faziam fugir das aulas de literatura. Não concordo em dar nas mãos de um leitor de primeira viagem um Alienista de Machado de Assis. Para ser franco, acho que é justamente esse tipo de literatura que espanta os leitores.

Não pela qualidade, mas sim pela complexidade. Os clássicos são “orgasmicos”, contudo, para aqueles que já contam com uma determinada experiência literária. 

Por isso, acho que seria mais interessante abolir os clássicos das primeiras séries e colocar algum outro tipo de literatura mais condizente com a idade e capacidade de aprendizado. Quanto aos clássicos… Não estou dizendo para dar uma de Hitler e sair queimando tudo, claro que não, mas deixá-los para séries onde os alunos já tem aquele amor pela leitura arraigado em seus corações. Onde não haverá possibilidades de se espantarem e abominarem a leitura, mas sim o discernimento da qualidade do ensino, do modo de falar e de tudo mais que envolve o universo fantástico dos grandes clássicos.

Infelizmente isso prova que as pessoas só se importam com os alimentos para o corpo, mesmo levando em consideração que sabemos que é um prazer momentâneo, tudo bem, essencial, mas que tem apenas um único destino. Bem diferente do alimento cultural que não se perde e muito menos se transforma em adubo.