Talvez seja o momento de olhar pela janela e refletir

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Talvez seja o momento de olhar pela janela e refletir. Neste momento, todos nós somos reféns de nossas casas. Não podemos sair, abraçar, beijar, dançar, estudar, trabalhar… Os mais pragmáticos diriam que estamos proibidos de viver nossas vidas. Compreendo. São anos e mais anos de existência, de costumes que não se perdem tão facilmente, ainda mais, quando somos forçados a observar através de nossas janelas, o mundo que parece seguir adiante e cada vez mais saudável. Como se estivesse se recuperando de anos e mais anos de nossa influência.

Entretanto, por culpa do acaso, do destino, do nosso consumo ou até mesmo, por culpa das estrelas, a vida foi forçada a parar. Quer dizer, não a vida em si. Estamos vivos. O que tivemos que frear foram as nossas trocentas milhões de atividades. Estamos sendo forçados a nos adaptar a uma realidade. Continuamos nos dividindo? Sim! Mas, desta vez, são com pessoas que nos tornaram um conjunto composto. Algumas dessas pessoas são os resultados do que dissemos alguns anos atrás diante do altar, que, talvez, neste momento, começamos a refletir por que dissemos aquilo… O mundo continua girando, meu amigo. E se ninguém é perfeito, imagina um punhado de imperfeitos vivendo sob o mesmo teto.

Isso é algo bem comum, sinto em dizer. Muitas pessoas dizem que relacionamentos são complicados, mas o que torna o negócio realmente complicado, somos nós! Para se viver a dois, não basta apenas amor. Ele é apenas o incentivador, o fósforo que acende o pavio de uma bomba, se vai explodir ou não, depende da qualidade do fio condutor e também dos explosivos que estão ali. Nós, seres humanos, somos bombas que explodem facilmente. Isso é algo engraçado, mas, se você parar para analisar, perceberá que faz sentido. E como não percebemos isso no período de experiência?

Fazendo uma analogia: digamos que o tempo de experiência de um amor é o mesmo que de uma empresa. Durante esse período, enquanto não somos registrados (que é a garantia que não seremos demitidos tão já), fazemos de tudo para nos apresentar como ótimos funcionários: chegamos cedo, saímos tarde, atenciosos, com boa memória, pacientes, tolerantes, enfim, somos tudo de bom para qualquer empresa pendurar nossa foto na parede com a frase: “funcionário do mês”. Entretanto, ao sermos registrados, aos poucos vamos relaxando e começamos a deixar a desejar. Passamos a chegar atrasados, fazemos as coisas na velocidade de uma lesma, nas coxas, para resumir, começamos a relaxar com tudo… E é neste momento que as coisas começam a complicar. De um lado, a empresa exigindo e do outro: nós, justificando nossas falhas, sendo vítimas de um sistema capitalista que não pensa no mundo operário. Deu para sacar o comparativo?

Algumas pessoas dizem que o amor acaba. Sinceramente? Acho que somos nós que deixamos as coisas degringolar ribanceira abaixo. Nós permitimos morrer, como aquela planta que compramos e esquecemos de regar e, mesmo lembrando-se, deixamos para quando estivéssemos menos corridos com alguma outra tarefa. Não posso dizer que todo mundo faz isso. Eu, pelo menos, já deixei isso acontecer algumas vezes. E a desculpa: correria. Sempre estamos correndo, mesmo quando estamos em casa em um final de semana, estamos correndo. Correndo para limpar a casa, para assistir um filme, para visitar algum parente, para fazer a comida, para cansar as crianças para ver se dão um descanso. Para no fim, correr para a cama. Não para fazer sexo ou namorar um pouco, ficar a sós com a pessoa que disse sim há muito tempo atrás. O dia foi corrido demais, estressante demais, está frio demais para tirar a roupa…

Mas sabe o que é pior? Nunca corremos para ajudar algo em nossas casas, não corremos para elogiar a pessoa que está ao nosso lado, pelo contrário, corremos para reclamar, para dizer que aquilo está no lado errado ou que não está certo, corremos para lembrar que esqueceram algo que não deveriam e não corremos para ver se realmente está tudo bem abaixo daquele semblante plácido e inescrutável. Quando passamos muito tempo com uma pessoa, é comum acharmos que a conhecemos tão bem ao ponto de não fazer nenhuma pergunta. E esse é um dos maiores erros: não podemos confundir pessoas com partes da mobília que podemos colocar onde queremos.

Neste mundo, – pelo menos é o único que tenho certeza que existe – acredito que tudo tem sua razão de acontecer, seja consequência ou resultado. E, por mais próximo que seja o sentido dessas duas palavras, servem para designar finais bem diferentes. Hoje, estamos enclausurados dentro de nossas casas, tendo que exercitar nossa tolerância e isso não é algo fácil para seres humanos que, desde os primórdios de sua estreia no mundo, passaram a transformar o planeta conforme a vontade de sua espécie. Nós trabalhamos e muito para torna-lo o que é hoje, não é mesmo?

Agora, não podemos correr pelo mundo que ajudamos a construir. Hoje temos que ficar “paradinhos” assistindo ao mundo através das janelas que nos informam estatísticas, avanços, que nos trazem aquela sensação de incapacidade perante uma luta que, se partimos pra cima, certamente perderemos. Podemos? Claro que podemos! A gente enfrenta um leão, estamos vendo ele vir em nossa direção. E quanto a esse outro inimigo que ninguém consegue ver e muito menos entender para criar armas para combate-lo? Enfim, talvez este momento seja o momento para continuarmos seguindo nossas vidas, matando nossos leões sem sair de casa, aprendendo a olhar para as pessoas que estão ao nosso redor como pessoas diferentes de nós, que precisam de algo, como nós mesmos precisamos.

Talvez seja o momento para perceber que, harmonia e felicidade não dependem de um momento, mas de um consenso. Talvez seja o momento, de cada um fazer a sua parte, de ajudar um ao outro, para diminuir a correria de apenas um lado, afinal: é muito mais fácil carregar um peso a quatro mãos. Talvez seja o momento de olharmos além das janelas físicas que nos prendem e perceber que o mundo ao nosso redor também mudou e vem se recuperando a passos largos.

Em muitas regiões podemos perceber o ar mais puro. Animais silvestres regressando para seus habitats, mesmo com prédios, casas ou ruas. Até os oceanos estão parecendo mais limpos depois que deixamos de caminhar livremente pelas ruas. Refletindo. Já parou para pensar que a nossa fauna e flora possa nos considerar um vírus também? Que invade, que mata, que força a viverem confinados em um determinado espaço físico que não chega nem perto de seus antigos lares? Talvez este seja um momento de reflexão a respeito das naturezas: aquela que está ao redor e também, da natureza do amor que ajudamos a destruir. Sinceramente? Acho que só não destruímos nossa própria natureza por sermos egoístas demais. Pense nisso.


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