Durante uma boa parte de minha vida trabalhei em lugares privilegiados. Endereços que, geralmente quem tem sempre razão é o cliente (mesmo quando não tem razão alguma). Já presenciei situações onde alguns consumidores desciam do salto alto para rodar a baiana caso alguém não lhes atendesse bem ou recebessem algum prato com algo que os desagradassem de alguma maneira. 

O engraçado dessa história é que, por incrível que pareça, essas pessoas que costumam andar de salto alto olhando para todo mundo como se vivesse em uma cobertura, geralmente atravessam a cidade inteira em conduções lotadas para chegar às oito da manhã em seus respectivos trabalhos. É a prova daquele velho ditado popular: come sardinha e arrota caviar. E o mais interessante é que a maioria desse povo, são atendidos por outras pessoas que vivem em periferias, ou seja, são seus semelhantes. 

Na minha opinião, tal comportamento representa a necessidade da pessoa de se colocar (mesmo que de maneira fantasiosa) em uma outra realidade. Como se trocasse de figurino para representar um outro papel que não fosse a sua realidade. Tem gente que nos finais de semana andam de chinelos nas ruas poeirentas do bairro e na segunda, se coloca no papel de algum grã-fino e faz exigências para aterrorizar a vida de pessoas que, como eles, viajam horas e horas em conduções lotadas para garantir o pão de cada dia. 

Eu imaginava que isso era falta de caráter, mas, depois de analisar atentamente outras situações, percebi que é algo ainda pior. Quer dizer, não deixa de ser falta de caráter e um tipo baixo de falsidade ideológica. Também é um tipo de preconceito ou uma forma de desclassificar as pessoas que habitam as regiões mais pobres da cidade. Prova disso são os bancos de alguns bairros distantes do marco zero da cidade. 

Por exemplo, eu que trabalhava na Paulista, estava acostumado a resolver meus problemas bancários em qualquer horário. Não precisava esperar os bancos abrirem para fazer um simples depósito, afinal de contas, as máquinas e os envelopes estão ali a disposição do correntista que precisa movimentar sua conta, não é verdade? Mas agora não estou mais na Paulista e as coisas estão bem diferentes. 

Nessa semana tive que fazer um depósito na Caixa e, para evitar as filas tão comuns, nada melhor do que acordar um pouco mais cedo e correr no banco, tinha outras coisas para fazer e estava com o tempo cronometrado. Ao chegar ao banco, aqui da Piraporinha de Santo Amaro, notei que uma fila enorme já estava se formando, não me desesperei, afinal de contas, como disse, um simples depósito é algo rápido. 

Passei por todas as pessoas que aguardavam o banco abrir e quando fui até o lugar dos envelopes, para minha surpresa, não havia nenhum… Sério, nenhum envelope! Foi neste momento que virei para o segurança e perguntei sobre os benditos, eis que ele responde que as máquinas são ligadas e liberadas apenas a partir das dez horas da manhã… DEZ HORAS DA MANHÃ… 

Nunca passei por algo assim nos meus tempos de região central. Geralmente os bancos, para saques e depósitos, funcionam por longas horas, jamais precisaram seguir o mesmo horário de funcionamento dos caixas ou dos gerentes. Achei um absurdo o banco do bairro liberar para depósitos e saques rápidos somente no início do expediente bancário… Que absurdo! 

Ou seja, o correntista que precisar sacar o dinheiro da condução para não chegar atrasado em seu trabalho ou em uma consulta médica, tem que esperar até as 10hs? Meu… Bom, aqui você pergunta: por que não tira a noite? Pelo simples fato dos caixas fecharem as 19hs… Isso mesmo, os caixas da Caixa fecham as 19hs… Se o cliente chega as 19h05m, ficou sem dinheiro. Pois nesse país (e ainda mais em algumas funções) os funcionários não esperam cinco minutos para encerrarem suas atividades, pelo contrário, podem até mesmo encerrar cinco minutos antes. 

E os absurdos não param por aí. Ontem (29/12/16) passei na frente da Caixa e me deparei com uma fila simplesmente gigante, na verdade, eram duas, cada uma indo para um lado. Uma delas para as pessoas que precisavam entrar no banco e a outra, para as pessoas que precisavam usar os caixas eletrônicos (que, apesar de serem eletrônicos e automáticos, precisam iniciar suas atividades juntamente com os funcionários de carne e osso). É um descaso e uma falta de respeito enorme para os cidadãos da periferia. 

Tudo bem que o banco é minúsculo e aquela quantidade de pessoas geraria uma imensa torre de babel em seu interior, mas nada justifica deixar pessoas esperando do lado de fora em uma fila quilométrica e ainda, debaixo de um sol de rachar. Na minha opinião, tudo é uma questão de bom senso e de trabalhar e não apenas do cumprimento da jornada de trabalho. 

Esse é um tipo de fato completamente desolador, mostra um tratamento territorial. Por que os correntistas da Paulista são tratados de um jeito e os bairristas de outro? O dinheiro de todos não vai para o mesmo lugar no final das contas? E não interessa se tem mais ou menos, uma pessoa não deve ser avaliada pela quantidade de dinheiro em sua conta, mas sim pelo que ela representa, um ser humano igual a qualquer outro, independente se mora em um palácio ou em um barraco, se é PhD ou alguém que acabou de aprender a assinar o próprio nome. 

O mesmo fato se aplica as pessoas que saem dos bairros as cinco da manhã em conduções lotadas e que deixam a humildade e o que são de verdade na gaveta do criado-mudo ou da penteadeira. Se fantasiam de grã-finos com roupas de marcas parceladas trocentas vezes no cartão de crédito que já pagam o mínimo a cinco meses, e pisam na cabeça daqueles que os atendem da melhor maneira possível. 

Esses dias ouvi no rádio que, se o consumidor não for bem atendido, ele pode reclamar e até mesmo exigir uma indenização. Acho que isso deveria existir para o dono de comércio ou atendente, nem todos os consumidores são gentis e educados, alguns além de nem cumprimentar direito ainda menosprezam aquele que está ali para atendê-los da melhor forma possível, mas nem sempre é fácil atender alguém que dormiu com a bunda descoberta, não é verdade?