Todos os dias deveriam ser

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A história que estou prestes a contar é sobre uma mulher que nasceu em uma cidade do interior, com uma família típica de uma cidade pequena, no entanto, essa mulher que na época era uma garota tinha sonhos maiores e acabou mudando completamente sua vida ao se mudar sozinha para a capital de sua cidade, São Paulo.
Ao chegar à cidade, essa jovem garota interiorana começou a trabalhar na Rua Rego Freitas no bairro da Consolação em uma casa de família. E apesar de se dedicar completamente ao lar, essa inocente garota tinha sonhos e costumava, nos momentos de folga, conversar com as outras empregadas das demais casas. Se juntavam no portão para jogarem conversa fora. E foi em uma dessas conversas que a garota em questão acabou conhecendo seu príncipe encantado.
Ele era um belo jovem, não chegou em um cavalo branco, mas o seu sorriso e sua lábia de Don Juan conquistaram a linda morena de cabelos tão lisos e olhos tão negros. Não conseguiu resistir e acabou caindo nas garras daquele homem que a conquistou nos primeiros olhares. E assim, começaram um romance e não demorou muito tempo, acabaram se casando. A garota interiorana estava realizando um sonho tardio, já estava com uma idade ligeiramente avançada para os padrões daquela época.
No dia de seu casamento, a jovem estava irradiante, havia chegado em São Paulo sem muita coisa e parecia estar começando a conquistar uma vida inteira ao lado de alguém que amava. Fora um dia marcante por duas razões, o seu belo príncipe não resistiu e deu uma olhada nada comum para uma das convidadas e também, pelo fato de ter prendido os dedos na porta do carro, mal sabia a jovem e inocente garota interiorana que aquilo não era um bom presságio, mesmo assim, ela continuou sempre acreditando.
Não tinham muito dinheiro e por isso moravam em uma garagem, para qualquer outra mulher, poderia ser algo deprimente, mas para essa linda garota interiorana, não era. Estava feliz e sabia que estava começando uma vida completamente nova e que juntos iriam vencer. Ficou ainda mais confiante quando ficou sabendo que estava esperando seu primeiro filho, que ficou chamando de filha durante muito tempo, mas tudo bem… Quando a criança nasceu, ainda ficaram um tempo vivendo no pequeno espaço debaixo da casa de sua amada e amorosa sogra.
E os anos foram passando para o casal, mas a felicidade parecia algo distante. Aos poucos o príncipe foi mostrando suas garras de gavião e a garota interiorana começou a perceber que havia se amarrado a alguém que não merecia seu coração, mas, havia dado mesmo assim e, com um filho nos braços e outro para chegar, aguentava com a esperança de dias melhores. Assim que o segundo filho chegou, que era uma filha desta vez, a pequena família, devido aos problemas de saúde da caçula se mudaram para um bairro distante da zona norte, um local que, naquela época para se ter água limpa era preciso dar uma bela caminhada.
Mas, a garota interiorana não se importava com isso, agora estava em sua casa de dois cômodos e tudo parecia estar prestes a melhorar. Mas, infelizmente seu príncipe começou a beber demais e foi se transformando em uma pessoa violenta e sempre pronta para trata-la mal. Sem poder fugir ou voltar para a casa dos pais (ela sempre dizia: sai da casa de meus pais sem filhos no colo, não voltarei com eles), ela suportou cada insulto e cada tristeza e até teve mais dois filhos com seu belo ex-príncipe encantado, pelo menos, até o dia que o príncipe convidou uma amiga de seu reino para almoçar em sua casa e depois de algumas semanas, fora viver com ela.
Aquilo quebrou o coração da pobre garota interiorana, se sentia perdida, dolorida, traída e agora, com quatro filhos pequenos para criar. A família do príncipe incentivou a voltar para a casa dos pais por temerem que os filhos se voltassem para uma vida que não prestava, mas, a ex-garota interiorana disse não, arregaçou as mangas e voltou a trabalhar nas casas de família. Acordava todos os dias as cinco horas da manhã, deixava os filhos dormindo e quando eles acordavam, os mais velhos ajudavam com os pequenos com a ajuda de Deus, se fosse hoje em dia, provavelmente alguém denunciaria essa mulher batalhadora sem ao menos perguntar porque.
Claro que essa garota do interior não queria deixar os filhos crescerem sozinhos, mas não tinha como, ela precisava trabalhar, o príncipe fugitivo não compartilhava os seus ganhos com suas crias e por algum tempo, os cinco viveram das migalhas que a mãe trazia para casa, apesar que, com a ajuda de algumas pessoas, as coisas foram se acertando e toda aquela tempestade foi passando lentamente. Tudo bem que, aqueles que ajudavam a olhar as crianças, reclamavam das artes do mais velho dos filhos, mas, o que fazer com crianças que cresceram com tais sentimentos? A mãe não podia dar o carinho e atenção que precisavam, pois ela sabia que precisava de algo mais importante: alimento.
E os anos foram passando e as coisas foram melhorando, as crianças cresceram e tudo foi ficando menos preocupante. Ela continuava acordando muito cedo para lavar privadas dos outros e ainda, voltar tarde para casa tendo que fazer o jantar, cuidar da roupa e tudo mais que uma mulher do lar precisa fazer para manter a casa em ordem. Ela reclamava é claro, estava cansada e carregava a casa inteira sozinha nas costas e o pior, com aquela tristeza escondida nas profundezas de seu coração.
Mas a garota interiorana começou a passear pelas noites em alguns finais de semana, as crianças já não eram crianças, mas sim adolescentes, daqueles que dão festa de Heavy Metal quando os pais estão fora de casa. Ela não se importava com as festas, apesar da bagunça e de pegar o seu mais velho geralmente meio alcoolizado nas escadas com seu melhor amigo que, era sempre intimado a ir com ele na padaria para comprar pão para um belo café para curar a ressaca. Ela não se importava e ele também não, o mais velho apoiava a diversão da garota interiorana que precisava viver um pouco para si própria.
Entretanto, um belo dia, o príncipe reivindica o retorno ao seu castelo, e mesmo depois de tudo que fizera com a garota, ela o aceita em nome dos filhos. O príncipe se coloca em seu lugar como provedor e senhor do lar e acaba cortando as asas do mais velho que, não poderia ser diferente do que um garoto rebelde de cabelos longos. Acabou as festas, mas ele não se importava, afinal de contas, havia esperança no olhar de sua mãe e no fundo, ele sabia que ela nunca havia deixado de amar o príncipe que a machucou tanto.
O príncipe continuou levando sua vida, de bar em bar, de cigarro em cigarro e o pior, sem se alimentar direito, até o dia que acabou adoecendo e começou a ter problemas graves de saúde. A família do príncipe estava distante e sobrou tudo para a garota do interior e ela, permaneceu ao seu lado com aquele amor inconfessável, aquele amor verdadeiro que é capaz de tudo pela pessoa. Infelizmente, o príncipe acabou perdendo uma perna e teve que se aposentar mais cedo, e quem arrumou tudo? A garota do interior que correu para todos os lados em busca de seus direitos.
As coisas não foram melhorando para o príncipe que foi ficando cada vez mais doente. Perder uma parte de seu corpo o havia transtornado de uma maneira tão terrível que já não sentia muita vontade de viver e durante muito tempo, ele ficou trancado no quarto tendo como companhia um aparelho de televisão e sua garota do interior ao seu lado, sempre pronto para ajudar no que fosse preciso. E assim foi até o momento que Deus chamou o príncipe para estar ao seu lado.Os últimos anos de vida do príncipe ao lado da garota do interior foram os mais marcantes, ambos descobriram uma amizade maravilhosa, o príncipe sentia prazer em fazer os gostos da garota do interior e, provavelmente, em seu íntimo, lá nas profundezas pedia perdão pelo que fizera com a única pessoa que não lhe virou as costas, que ficou ao seu lado nos piores momentos de sua vida: a garota do interior. As outras? Provavelmente nem se lembram do príncipe e mal sabem que partiu para o lado de Deus.

Para um lugar que os que o amavam, apesar de tudo, não podem segui-lo como fizeram quando eram apenas duas crianças cruzando a cidade para ter algum momento com o príncipe. O príncipe faleceu ao lado de sua linda garota do interior e, provavelmente, antes de partir, teve certeza do amor que sentia por ela e ela, por ele e eu, a certeza de conhecer uma mulher fantástica, que passou por cima dos destroços de seu coração para ter o homem de sua vida ao seu lado e ao lado dos filhos.
Algumas mulheres poderão até dizer que ela foi tola, mas uma mulher com um coração grande demais não pensa em coisas tão pequenas assim, um coração que ama de verdade sabe perdoar e passar por cima, afinal de contas, amar é perdoar e foi isso que aprendi com essa garota do interior, que se transformou em uma mulher guerreira, que lutou bravamente para criar seus filhos sozinha e que, mesmo tendo sido esmagada pelo príncipe, quando ele mais precisou, esteve ao seu lado, mostrando que, águas passadas não movem moinhos…  E esteve até o fim.
Quanto aos filhos que muitos achavam que se perderiam pela vida: a caçula cresceu até demais e se tornou uma linda mulher, respeitada, querida por muitos, devidamente graduada em História e com casamento marcado; o terceiro depois de uma carreira no exército, se tornou um bombeiro e tem uma família linda; a segunda, outra linda mulher, também se formou e se casou com uma pessoa maravilhosa de gosto musical duvidoso, mas até aí… e o mais velho, não se formou em nada, mas Deus foi generoso com ele dando alguns dons e este é um deles, de contar a mãe maravilhosa que ensinou aos filhos o verdadeiro significado de amar.
E dedico esse texto não somente para minha mãe, uma mulher maravilhosa, guerreira, de sangue nobre e alma tão pura que é capaz de estender sua mão para ajudar, mesmo quando não tem condições de ajudar. Mas também para as outras mulheres que lutam, que chegam em casa depois de um dia de trabalho e ainda correm para os afazeres domésticos, para alimentar os filhos, para aquelas mulheres que sacrificam seus finais de semana para colocar a casa em ordem, não tendo um segundo sequer de descanso. Para todas as mulheres que sofrem por alguma razão, mas que não se deixam abater pelas mazelas da vida.
Dedico esse texto para minha mãe, minha esposa, sogra, irmãs, cunhadas, amigas e para todas as mulheres, pois todos os dias deveriam ser o dia das mulheres e dia das mães, afinal de contas, sem elas, não existe beleza no mundo e muito menos a possibilidade da continuidade da humanidade.

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