Às nove horas da manhã, em um dia atípico, o celular desperta preenchendo o vazio silencioso do quarto com sua voz robotizada e feminina: É-hora-de-acordar-são-nove-horas. Claro, não acordei no mesmo instante, quando o tomei nas mãos para desligar, vi que se passara meia hora do programado para despertar… Diga a verdade: em pleno domingo, quem gosta de levantar cedo? Nem preciso dizer que já levantei com meu humor completamente sensível, sentindo que qualquer palavra mal dita poderia iniciar a terceira guerra do meu mundo, mas, fazer o quê…

Até hoje me pergunto por que inventaram de fazer as eleições em pleno domingo… Será que os responsáveis por marcar tal data imaginam que vamos às urnas, felizes e contentes em pleno domingo? Por que não mudam para um dia da semana? Sei, as pessoas trabalham, mas no domingo também, e se estão preocupados com as pessoas que trabalham…

Por que não levam em consideração que o domingo é o único dia que podem descansar de suas semanas corridas?

Isso sem mencionar nossas mulheres que trabalham a semana inteira e ainda enfrentam o fogão aos domingos para fazer um almoço especial para comermos em família. Dizem que nós homens somos as pilastras do lar, mas, sejamos francos, são as mulheres a parte mais importante: o alicerce.
Seja lá quem for que marca o dia da votação, poderia pensar nessas mulheres que trabalham todos os dias, que pagam seus impostos e ajudam ao estado/país a crescer de alguma forma… Ao menos a presenteariam com um dia de folga, ou melhor, com menos trabalho, mas… Diga a verdade: O que é justo no país? Isso prova que, quem manda, sempre é aquele que detém o poder, o dinheiro…

Os organizadores preferem sacrificar o único dia de descanso do trabalhador em nome da democracia… Por que não sacrificam o sábado, a segunda ou até mesmo a quarta-feira?

Depois de ter exercido de bom grado meu direito de cidadão (não chamaria de direito algo que somos obrigados a fazer), voltei para minha casa, almocei e com meu livro debaixo do braço, me encaminhei para meu novo destino: a bienal de artes no Ibirapuera. Finalmente aquele estranho humor desapareceu de meus pensamentos e sorri, ao perceber que o ônibus passara rapidamente. Tudo estava dando certo, o pior havia passado e agora estava a caminho de uma tarde que seria com certeza digna de ser lembrada.
Mas, como dizem, alegria de pobre dura pouco e quando cheguei na Avenida General Penha Brasil, havia um pouco de trânsito. Consultei o relógio e vi que ainda estava cedo, dei de ombros e continuei minha leitura. Li uma crônica, a segunda, a terceira e quando ia começar a quarta, olhei para o lado e percebi que ainda estava no mesmo lugar. No segundo seguinte, fechei o livro e comecei a esticar o pescoço para ver o que estava acontecendo.

Depois de quinze minutos, pedi para o motorista me deixar descer pela frente, já havia perdido quase quarenta minutos naquele trânsito.

Desci e continuei meu caminho andando… O que vi me deixou completamente pasmo, um congestionamento gigantesco e ninguém do DSV para coordenar os eleitores que, estavam atrás dos volantes, tentando chegar as suas zonas eleitorais, apesar que, já estava tudo uma zona mesmo… Sem mencionar a quantidade de papéis jogados na rua, pisados, molhados, e o pior, muitos deles, iriam parar nas bocas de lobo, e depois seriam trazido a tona novamente com algum alagamento.
Acabei chegando ao Largo do Japonês depois de andar quase por quinze minutos e o pior, já começava a sentir os indícios de suor, ou seja, os perfumes que havia passado para meu encontro, poderiam não durar até o tão esperado momento, mas, continuei, segui o meu destino e de quebra, tive que correr atrás do ônibus, qualquer segundo, naquele momento era uma pepita de ouro…
Quando cheguei ao meu destino, depois de relatar minhas façanhas para chegar até ali, no metro Ana Rosa, pude observar ao meu redor, o gritante contraste com a periferia. Não havia trânsito, os carros seguiam seus destinos calmamente pelo tapete negro, as pessoas ouviam suas rádios preferidas, conversavam com sorrisos decorando suas faces, bem diferente dos motoristas que vira há algumas horas atrás.

Pessoas nervosas, com expressões carrancudas e olhares inexpressivos… Por que será?

Chegamos ao destino e para fechar minha noite, descobri que não entendo nada de arte, pois as obras que estavam em exposição na bienal não me disseram absolutamente nada. Tentei entender, acredite, me esforcei para tentar encontrar uma explicação, procurar algum resquício de sentimento e razão para aquelas formas existirem, mas não encontrei… Talvez não seja tão Cult assim…
Fiquei um pouco decepcionado com as obras de arte, mais ainda com o terrível contraste e descaso da periferia em comparação com os bairros nobres… Os candidatos são os mesmos, as pessoas são diferentes, mas isso não quer dizer que uns mereçam mais e outros menos… O voto do pobre e do rico tem o mesmo peso nessa balança desequilibrada… Ou não? Às vezes, acho que não.

E o mais interessante, o político corrupto rouba de ambos os lados, mas do trabalhador, além de seu bolso, o seu tão esperado e desejado domingo.