Uma visita nada comum

Certa vez, fui visitar uma amiga que não via há muito tempo. Queria fazer uma surpresa e não avisei a respeito de minhas intenções, porém, ao chegar à casa, quem teve a surpresa foi eu, ela não estava. Como na época morávamos em cidades diferentes, a ideia de voltar não me apeteceu nenhum pouco. Decidi ligar para ela, afinal de contas, ela poderia estar próxima e, caso não, por consideração, poderia vir para casa.
Quando disse que estava na porta de sua casa, minha amiga quase surtou, ficou muito feliz e admirada pelos quilômetros que venci para dar um abraço e colocar as fofocas em dia. Perguntei se ela demoraria a chegar esperando que ela respondesse que já estava a caminho, mas, o que ouvi foi que tinha uma reunião muito importante e que não poderia desmarcar. Comecei a olhar para os lados procurando por um lugar para sentar e ficar esperando como um cachorro obediente, quando, ela revelou que havia uma chave reserva escondido dentro de um de seus inúmeros vasos de flores.
Ela pediu para me certificar que não havia ninguém me olhando algumas vezes antes de finalmente encontrar a bendita chave. Assim que encontrei, minha amiga desligou o telefone prometendo que tentaria chegar o mais cedo possível em retribuição. Guardei o celular na bolsa, abri a porta e dei uma olhada ao meu redor, minha amiga, como sempre, era extremamente organizada e tudo em sua casa parecia perfeitamente arrumado.
Dei uma volta pela sala, reconhecendo cada objeto e cada badulaque, depois dei uma passada pela cozinha em busca de um copo refrescante de água gelada e logo em seguida, me sentei no sofá, liguei a televisão e fiquei entretida com um programa de auditório. Estava muito interessante, porém, subitamente, a televisão se apagou. No primeiro momento me assustei, mas fiquei mais tranquila quando constatei que havia acabado a energia. Peguei meu celular e vi que faltava muito tempo para minha amiga chegar, tentei acessar a internet para me distrair, mas, estranhamente, estava sem internet.
Sem nada mais interessante para fazer, comecei a andar pela casa e não demorou muito tempo para encontrar o quarto de minha amiga. Era grande e tinha uma imensa cama de casal box no centro, as paredes eram pintadas de branco, mas, curiosamente, minha amiga inventou de pintar em degrade as paredes de seu quarto, do azul celeste do teto para o branco. Ela sempre teve bom gosto para decoração e seu quarto era magnifico, tudo harmoniosamente claro e bem arrumado, como tudo na casa.
Quando abri seu closet, notei suas roupas muito bem arrumadas e organizadas por cor, os sapatos alinhados perfeitamente na parte de baixo, mas algo chamou minha atenção mais do que aquela arrumação. Acima dos cabides havia uma pequena prateleira com alguns bichinhos que pareciam de pelúcia, mas que não eram de pelúcia. Um deles chamou minha atenção e acabei pegando um deles para dar uma olhada mais de perto.
O pequeno bichinho era bonitinho, tinha orelhas pontiagudas, olhos grandes e redondos e seu corpo parecia com um ovo de avestruz. Sinceramente, não sei o tamanho de um ovo de avestruz, mas mencionei a ave só para terem uma ideia do tamanho do bichinho. Particularmente, naquele momento não sabia distinguir o que era aquilo, tinha um bico protuberante e seus cabelos (ou pelos?) era azuis com algumas partes mais claras.
Dei de ombros e assim que coloquei o bichinho em seu lugar, seus olhos se acenderam como se fossem dois faróis. Assustada, me afastei do closet e, inesperadamente o bichinho que pegara nas mãos, disse: Oiii… Como vai você? Achei aquilo uma graça e não pude deixar de responder, e por incrível que pareça, o bichinho simplesmente respondeu meu cumprimento. Achei aquilo incrível e de repente, para minha surpresa, ele começou a rir e balançar. Peguei ele nas mãos novamente e ele pediu que fizesse carinho em sua cabeça, não costumo dar atenção para brinquedos falantes, mas, ele era irresistível e acabei cedendo.
Ele parecia estar gostando dos meus carinhos, fazia sons de prazer e de vez em quando falava: eu gosto, mais… E eu entrei na brincadeira e fiz muito mais do que carinho, comecei a falar com aquele brinquedo e ele respondia, não demorou muito tempo para ele começar a dizer palavras diferentes e achei aquilo fenomenal, pelo menos até o momento que, acabei me assustando com um movimento inesperado do brinquedo e deixei-o cair.
Ele gritou: ai. Me abaixei, peguei-o novamente e por incrível que pareça me desculpei. Para minha surpresa, o brinquedo começou a vibrar mais rapidamente em minhas mãos, os sons que emitia agora, não tinham nada de simpático, pelo contrário, parecia extremamente irritado. Entre uma palavra ou outra, ouvi algo que pareceu com: desgraçada! Assustada, afastei aquele brinquedo que até o momento parecia inofensivo de meu corpo e olhei para ele, seus olhos brilhavam de uma maneira assustadora.
Virei-o de costas, em busca do botão de desligar, mas não encontrei nada. Ele pareceu ainda mais irritado, sem saber o que fazer, coloquei-o onde estava e para meu desespero, todos os demais bichinhos começaram a balançar e a imitar aqueles sons metálicos que pareciam reclamações, todos com os olhos brilhantes e estranhamente ameaçadores. Fui me distanciando lentamente, sem desviar os olhos daquela trupe assustadora. Tinha medo que, se virasse de costas, viriam atrás de mim.
Ao chegar a porta do quarto de minha amiga, fechei-a e me encostei segura de que não seria surpreendida por nenhum deles. Suspirei aliviada e encostei o ouvido na porta, os sons haviam parado e a casa inteira mergulhara em um silêncio profundo e opressor. Por uma curiosidade estranha e sem explicação, abri a porta e, assim que olhei para aqueles bichinhos, eles voltaram a vida e começaram a se mexer e a fazer os sons novamente.
Fechei a porta novamente e os sons continuaram, inesperadamente meu celular tocou e notei que era minha amiga. Atendi rapidamente e ela me avisou que já estava a caminho de casa, que demoraria cerca de uma hora ou menos, dependendo do trânsito. Agradeci o aviso e não pude resistir em contar sobre minha experiência com seus bichinhos e foi nesse momento que tive a maior e mais terrível surpresa de minha vida.
Ao relatar todos os fatos, minha amiga simplesmente riu de mim e disse que estava imaginando coisas, que aquilo era, com certeza, impossível devido ao fato dos bichinhos não estarem com suas pilhas. E ao ouvir aquelas palavras, ao saber que aqueles lindos bichinhos estavam funcionando sabe lá com o quê, desliguei o celular, peguei minha mochila no sofá e decidi encontrar minha amiga na rua.
E quando ela me convidou para passar a noite na casa dela, não pude aceitar e tentei de todas as maneiras persuadi-la a me deixar a dormir em algum hotel, entretanto, ela acabou me convencendo e me vi deitada no sofá da sala. Demorei um bom tempo para pegar no sono, os bichinhos estavam trancados no closet, eles não poderiam sair de lá, mesmo assim, sabia que eles haviam funcionado sem pilhas. Tentei me convencer que tudo fora uma pegadinha de minha cabeça e acabei adormecendo, mas, inesperadamente, lá por volta das três horas da manhã, despertei com o ronco de minha amiga e quando olhei para o seu quarto, o que vi me deixou completamente estarrecida. O bichinho que derrubara há poucas horas atrás, estava ali, parado, olhando em minha direção com aqueles olhos brilhantes, ele balançava lentamente ao som da marcha fúnebre que murmurava.
Cobri minha cabeça rapidamente e fiquei esperando por um ataque fatal, mas não aconteceu nada. Acabei passando a madrugada inteira acordado e quando ouvi minha amiga se levantando, fui até seu quarto, o closet estava aberto e o boneco que me assustara, parecia olhar em minha direção, e foi nesse momento que me despedi de minha amiga e sai de sua casa praticamente correndo. Até hoje ela me pergunta o que aconteceu e até hoje escondo a razão, afinal de contas, como ela acreditaria em mim?

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